Abres a janela abres a camisa abres o teu corpo. Caminhar igual em pés nus aprendi contigo o que me faz esquecer ladeira abaixo o encosto da taberna não me apetecem copos e não me apetecem sapatos e também da conversa dos velhos não trago saudades da subida até casa. Recluso-me em ti e no teu corpo, abotoo-me na tua camisa, voo na noite de intenso azul achando que é a última, janelas abertas ou o quadro a beber pinceladas e antes que chegue silencío nos teus olhos o que não preciso de dizer tu pões dois dedos na minha boca a mandar calar as palavras que encosto aos dentes.
Gosto de sentir a tua garganta latejar como se fosse perigoso teres-me por detrás, a minha palma da mão a sentir um burburinho a descer e a subir como se não soubesses se queres mais ou pedes para ser agora, toco-te e agitas-te como um choque que me passa uma convulsão que nos electrifica, não sei de mim nem de ti nestes instantes, perdemo-nos e logo a seguir achamo-nos num liquido saboroso que me recorda a tela, azuis e terra e nós para sempre imortais num acto animal de cópula necessária porque é um alimento como o que levamos à boca. Abro a janela e a noite ainda é profunda.
Não consigo deixar de olhar esta tela e já nem és tu que és o objecto maior nela, é o todo das cores que a começaram a fazer viver como um todo que somos. Sinto-me vivo pelas cores que mancho em cada pincelada que dou, em cada tinta que preparo. De repente voltei a ser rapaz outra vez. Mas tão novo como quando andei em Belas-Artes e tinha o fascínio de aprender. Uma fome continuada que não dava sossego e chegava a ser incomodativa pela obsessão com que arrastava os demais ao meu redor. Do que me fui lembrar. Do que me fui lembrar voltar a sentir e viver e gostar e tal como os copos que viciosamente chupo no tasco quero mais e não quero voltar a perder, tudo o que preciso está nesta tela e nestes tubos entortados de tanto serem espremidos para me fazerem voltar a ter dor e prazer. Sem separação de dias e noites.
Terminei o teu esboço e nem precisei que voltasses àquela posição estática, o momento ficou para todo o sempre gravado na minha memória e na minha orelha e em toda a minha pele. Só de me lembrar sinto uma electricidade a correr-me pelas costas. Falta agora o trabalho grande, colorir, quero pintar-te a azul grandes tons de azul e os telhados a uma aguada terrosa ao fundo, depois hei-de mandar emoldurar e pendurar aqui na sala onde os tectos possam assistir a este bocado de momento pelo resto das suas vidas e das nossas. Ou pelo resto da minha, é tudo uma questão de conceito ou da chegada da noite não importa, o que interessa és tu teres chegado à minha nesta altura não noutra e se foi agora é porque é agora que sei dizer o que nunca quis. Não vejo um azul sinto tonalidades que me vibram e sinto-me vivo.
Olho para ela enquanto ela olha não sei para onde sentada no parapeito da janela como se o cavalgasse, uma perna para dentro e a outra para lá e as costas ligeiramente amarrecadas, traço no papel as linhas do contorno do seu corpo esguio, mais distantes os telhados avistados e mais perto o sofá, a mesinha. Estás imóvel como se soubesses que te desenho e balouças a perna a dar sinal de vida, os riscos saiem-me como há muito imagino, os trabalhos que tenho feito afinal não me atrofiaram a mão, não te mexas por favor nem um milímetro é só o que peço mas não lhe digo nada se lhe disser é capaz de saltar dali ou voar só para me contrariar ou porque não quer sei lá, eu quero é marcar-te no papel, tenho a certeza que se te desenhar não foges e esta é a beleza do instante, a inquietação. Olhas para mim e sorris não sei porquê, páro a mão pouso o lápis fico com medo. Vens até mim, abraças-me e dizes baixinho ao meu ouvido diz-me que não me mandas embora e eu não vou embora nunca mais.
Quase meio Ano sem aparecer e é isto, este silêncio que me obriga a um silêncio de frade onde os meus tectos de florões centenários parecem agradar-se sem nada mais importar e tudo pára, a janela aberta é outro mundo descoberto e das perguntas que tenho adio porque tenho medo que ela se vá de novo, se faça ar azul e se ale desaparecendo como se eu fosse um louco cheio de interrogações para um esboço desenhado a quem dei vida e mais ninguém o veja para além de mim. A russa diz que ela não pode cá ficar que me vai roubar mas a verdade é que ela já me levou tudo o que era de valor, o resto são restos, coisas que fui amontoando dentro de casa para fingir que sou normal. Afinal nunca tive o prazer nem a vontade de dizer as palavras até aquele dia e essa dor misturada com a tinta foi única, uma sensação que não esqueci e que se instalou por dentro como uma doença que não consigo dizer, nem mesmo aos murmúrios da noite a chegar.
Não me adianta não respirar, do outro lado da porta a vizinha bate leve, raspa, sinto-lhe o corpo encostado à madeira e a mim apetece-me escancarar tudo para que a gorda se despenque para este lado pois não desiste e insiste não há paz para os vivos quanto mais para os que se querem passar por mortos, faço-lhe a vontade e abro. Mas a gorda não cai é a puta de um chinelo só sem chinelos, calçada de ténis e de cabelo a tapar-lhe toda a cabeça, as orelhas, a testa e um pedaço do pescoço nem sei que diga agora que está aqui deve ter sede e de repente o azul que vejo em todo o lado desapareceu. Entra e ela entra devagar a roçar a moldura da porta sem tirar os olhos de mim e eu dos dela não sei se a hei-de agarrar ou ir buscar um copo de água ou fazer-lhe perguntas. Sento-me no banco do estirador e ela no sofá e depois levanta-se como se o lugar estivesse ocupado vem até mim e põe a mão sobre a folha branca, mexe nos lápis, nos pincéis, vai até à janela e abre-a, debruça-se encosta-se no parapeito a ver o rio ao longe e o outro lado, os candeeiros perfilados, as caravelas recortadas com o corvo símbolo da cidade. A noite está calma e sem vento, ponho-me ao seu lado.
Talvez se esta morrinha não caísse tão devagarinho a lustrar a calçada eu não me lembrasse dela, fechava a janela por causa do calor e debruçava a cabeça sobre o estirador nos papéis que estão em branco à espera de um traço um esboço um projecto que apareça à frente da vista ou um clarão que apague a mancha de azul que inunda todas as outras imagens que mal tentam aparecer aguam-se em manchas lentas até se dissolverem em castanhos sépias encardidos. Mas não para. Nem chove mais nem para. Uma merda. Fica neste constante respingar suspenso como se a qualquer momento me deixasse adivinhar mesmo no momento em que me preparo para fechar as janelas que há-de aparecer a arrastar o chinelo mesmo nesse momento a qualquer momento. E não passo disto. O momento. O branco. A diluição. O encardido. Agora vou mesmo fechar a janela não quero saber mais de momento nenhum quero chova muito ou pare de vez. Só me faltava baterem-me agora à porta, a vizinha a uma hora destas não há paciência, faço-me de morto ou morro de vez.
Encomendas para este dia que é um dia que nada me diz, cartaz para a criança, fiz o que tinha a fazer, pai que sou sem nunca ter sido, engraçado como guardei a questão assim como arrumei o trabalho encomendado, é para fazer faz-se, dá cá toma lá, recebo o meu não me voltem a pedir coisas destas que eu não tenho perfil para coisas de criança, embuchei a mulher em terras de África sem ter sido consultado, uma paternidade pelas costas e no final tudo morto sou um pai igual ao meu não quis ser o que sou e nem pedi para ser, é o cartaz, publicidades a crianças felizes por um dia mas só mesmo neste em que por encomenda se disfarça a noite, recebo o meu e não quero pensar mais em filhos ou em pais e especialmente em mim que não sou filho de um que não me quis.
Depois de ter entregue os trabalhos resolvi andar pela cidade, desta vez não trouxe o carro é uma estucha ter de arranjar lugar para estacionar e dar dinheiro para parquímetros mais vale dar a moeda ao elefante do jardim do zoológico. Mas esta Capital está velha, decadente, cada vez está mais cheia de animais e eu que pouco saio de casa e do meu bairro da minha rua não tenho paciência para estas incursões e logo me arrependi da decisão, os barulhos confundem-me e os sinais não dão tempo para atravessar e as pessoas são mal educadas, dão encontrões, cospem no chão e a quantidade de pedintes e dos que arrastam roupas e carrinhos assustou-me pela violência do número crescente desde a última vez que me tinha afoitado em semelhante aventura. Quando iniciei a subida na minha calçada e me senti de novo seguro como em terra firme, o rio ao longe avistado brilhante é que tive a certeza do forte em que me resguardava. Pensei na miúda de um chinelo sozinha, se estivesse comigo eu podía defendê-la daquela selvajaria toda e mostrar-lhe da minha janela a noite a chegar vagarosamente sem ruídos e sem medos.
Acordo com o barulho das chaves a tilintar na mão da russa à porta do quarto e a voz de caramelo a dizer-me para ir tomar banho que homem grande não pode ficar na cama até à noite, tapo a cabeça, odeio esta mulher que acerta nas coisas e desejo ardentemente estar a sonhar, não sentir o cheiro de comida e que tudo desapareça, agarro o meu membro entre pernas e apetece-me ter uma mulher, apenas o acto em si, nada de outras coisas ou outros pensamentos complicados com frases à mistura em que se fazem perguntas e esperam-se respostas, só me quero vir e espero que a russa não volte a entrar no quarto por amor de deus porque estou quase, quase. Sinto a mão a latejar ou o pénis ou a testa ou o pescoço e a voz da russa lá para dentro mas não sou capaz de responder, deixa-me daqui a um bocadinho já te digo tudo mas não agora miséria, tens de perceber que há momentos que são só meus e acabaste de me entrar no sono, no quarto, nos lençóis, na pele, é a tua voz que se infiltra, dá-me um tempo por favor. Aparece à porta do quarto com uma chávena de café e pergunta-se se estou decente, não te respondo russa mas obrigado.
Olho para esta porcaria e não vejo nada, nada que se diga que se veja, que se diga que presta, trabalho de merda e o outro está aqui está a sarnar-me o juízo por causa dos prazos, e elas que não me saiem da cabeça, as duas à vez e depois mais uma que a outra e a do chinelo sempre aqui atrás de mim pintada de azul, sinto-a atrás do meu pescoço e a dos cabelos no sofá a rir, a enrolar bocados do cabelo nos dedos, quando me volto não está ninguém, uma porcaria de trabalho este. Olho os florões no tecto e dói-me cá dentro, peço desculpa pela miséria que apresento aqui em baixo no estirador, não sou um génio. Apetece-me chorar, chorar e esquecer que estou sozinho sem ninguém, ter pena de mim próprio por querer voltar atrás e voltar a dizer não que se pudesse dizia não outra vez, ficava sozinho outra vez, afinal também tenho direito a ter os meus momentos de desespero que diabo. O mal disto são estas gajas, aparecem e depois vão-se mesmo que um gajo diga para elas irem não é bem para elas irem de vez. Só de vez em quando.
É noite funda e o sono foi-se, foram-se os copos emborcados para o fundo do despejo de um estomago vazado, não me lembro se hoje comi, só me lembro do rosto dela e da cabeça dela de cabelo muito rapado, os pés muitos sujos. Tanta fragilidade. Até onde os meus olhos conseguem ir já varri a calçada mas o amarelo dos candeeiros apagam mais a vista do que alumiam e não há ninguém a quem eu possa perguntar se a viu passar, há-de ir a arrastar o outro chinelo e pelo som mesmo que a não consiga ver hei-de reconhecê-la e saber que é ela, grito o nome, qual nome agora me lembro que não sei o nome dela e a estas horas não me posso por a dizer puta de um só chinelo à janela ou a berrar a miúda que tem sede ou aquela que eu provei e que tem um sabor único a azul. Está mais azul que o negro da noite, vem-me de dentro e mais fundo que o estomago, aposto é da barriga da noite.
Pergunta-me que tenho eu que estou emburrado, burra é a tua prima ó taberneiro duma figa, mas palavra de honra que dou comigo a pensar na outra casada, fiquei parvo, nunca a imaginei casada, para mim sempre haveria de ser a minha rapariga dos saltos de martelinho toda vivaça e de cabelos a mudarem de cor como eu mudo de camisa e vai-se a ver casada como é que isto veio a acontecer o mundo dá cada volta. No fundo sinto-me envergonhado. Envergonhado. Não devía ter feito o que fiz. E ela também não devía ter deixado levar as coisas por diante, casada porra e vai deixar um gajo comê-la! Está bem que fui, não foi um sacana qualquer mas mesmo assim! E ainda me pergunta o taberneiro porque é que estou emburrado? Dá-me outro e mete na conta. Daqui até lá acima preciso de muito combustível para subir a calçada, entrar e lembrar-me da cena, será que ela se lembra? Dei-lhe para ela se lembrar e ela também me deu, é melhor nem me por a pensar naquilo senão fico aqui em pulgas e a outra? A do chinelo? Que saudades... Nem acredito que pensei nisto. Anda enche outra vez e põe na conta.
Isto podía ser a repetição da cena anterior que o cenário é o mesmo e as personagens até se vestem de igual mas sendo cinema europeu não se podía esperar outra coisa, deve ser por isso que os beefs cada vez mais gostam de nós, de uma forma bárbara diga-se, mas naquele dia ou hoje vai tudo dar no mesmo. Estou eu à janela e eles a descerem a calçada que vai tudo para a manif, perguntas repetidas e respostas repetidas, já disse que não vou estou entretido a pensar no que se passou noutro dia com a outra, tenho aqui para o dia inteiro que aquilo foi uma verdadeira surpresa. Casada. Casada e vai de encornar o marido se bem que dar uma comigo não é bem traír o marido, nós já fomos íntimos, quase vivemos juntos, bem que ela quería eu é que não fui nessa, agora estaría eu com um peso na testa até parece que adivinhava o futuro. O mal disto são os saltos, aqueles saltos na escada hipnotizam-me e levam-me a fazer coisas que eu não quero ou então é o cabelo ou o cheiro ou o sabor salgadinho sei lá eu. Só sei que estávamos tão bem e de repente se levantou como uma mola e se vestiu e desatou a murmurar pelo marido que tinha de ir embora por causa do marido e eu desprevenido e nu só tive tempo de agarrar os óculos e pôr as mãos à frente do escrito. Aquela noite apanhou-me completamente envergonhado. Talvez porque ainda não era noite profunda.
Conheço o repicar desses saltos de cor e salteado mas digo para mim que é uma partida porque me lembrei de ti no 25 de Abril e até zombei da tua ignorância naquele tempo, tanto tempo, quantos anos passaram, de que cor tinhas tu os cabelos naquele dia, era uma inconstância contigo que não me dava sossego e no entanto era a tua melhor arma só agora o sei.Antes de bateres na porta abro-a, ficas surpreendida e até eu, afinal não foi uma alucinação estás mesmo aqui. Entra e tu entras devagar, os olhos a varreram a sala muito arrumada e limpa, que surpresa não é, senta e puxo-te pelo braço para mim, não sei porque o faço sinceramente mas quero sentir-te aconchegada ao meu peito e cheirar-te o pescoço e os cabelos, ah os cabelos estão castanhos de novo, que pena não me lembrar de que cor tinhas os cabelos naquele dia mas não faz mal, abraçar-te, sentamo-nos no sofá apertados e sem nada dizer, beijo-te os olhos, a boca, seguras-me os pulsos e eu páro. Não dizes nada. As tuas feições aprumaram-se com o passar dos anos e a frescura deu lugar à certeza dos sins e dos nãos nos vincos que despontam ao redor dos olhos, na comissura dos lábios. Abres a blusa e guias as minhas mãos ao teu peito. Desprezo-o, empurro a tua saia para cima, rasgo-te as meias e desvio a cueca do meu caminho, afasto as tuas pernas e só então abocanho os teus seios, desço e a minha língua encontra o teu sabor salgado, sinto as tuas mãos na minha nuca e as tuas coxas a afagarem-me as orelhas. A noite faz-se anunciar e nós dois de olhos fechados.
Estou à janela e lembro de há uns anos estar aqui com uma outra, ela de cravo de papel agitadíssima e sem saber nada de revoluções, nascida antes dela eu divertido da ignorância dela e depois nauseado da parvoíce dela. Há quanto tempo foi isso... Agora à janela só, ainda só, tanto quanto estava naquele ano, a ver a vizinhança descer a rua de cravo ao peito, cravo de carne e com perfume e a dizerem-me adeus e a perguntarem-me a este alto se eu não vou à manif, não não vou, nunca fui dessas coisas, a multidão faz-me sentir solitário. Ou talvez eu esteja descrente de revoluções porque os cravos se fizeram de papel, sem perfume e sem perguntas. Vou ficar por aqui à espera da noite. Quem sabe me traz respostas.
Bato o sebastião no balcão e o taberneiro lembra-me as contas penduradas que a última foi à má-fila e nem dei tempo de lhe dizer quanto devía, que deve ser por isso que há muito não ponho lá os cotos com vergonha e tudo, e tudo pois então, e a russa, safa-se. Quer pormenores, se é para todo o serviço, todo o serviço, limpar, passar a ferro e cozinhar. Um dos velhotes pergunta se já passei o corredor a pano, gargalhadas, é para isso que pago respondo, para não ter que fazer nenhum e tu ó velho vê lá se te cai a placa, assobios, palmas e pedras de dominó a bater a meias com o gesto de outras a bater, ainda te gastas e depois não sobras para os bonecos, deixá-los rir anda serve-me outro e vais pagar? Encosto as costas ao balcão e vejo a claridade a atravessar o tasco, às vezes vía a puta de um chinelo só a subir a calçada e pensava que desgraçada ali vai agora penso que desgraçado aqui estou a olhar para a porta que não a vejo passar. Vou pagar sim, tudo.
O tapete está limpo, nem uma mancha azulada a lembrar as pegadas dela ou pista que recorde que ela tenha estado aqui e que tivéssemos sido naquele dia dissolução de tinta em água perdida de pincel, uma agitação da memória, tudo se foi, o tapete está limpo e nada há para comparar tamanhos de pés, o meu ao lado do dela descalço e a fome insaciável que me come por dentro, talvez a russa me consiga limpar a lembrança de ti e também de mim e me dê fastio, até lá ajoelho-me e procuro entre fibras do tapete vestígios do que fomos em azul, animal que cata e nada acha para se alimentar... E no entanto, continuas tão viva e salgada na minha boca como naquele dia. A russa tinha razão, não é preciso esquecer. Só porque agora é dia não esqueço que a noite há-de retornar então porque tu haverias de te apagar em mim? Nunca.
De inicio a russa vinha uma vez por semana mas depois começou a deixar-me comida preparada, roupa passada e tive que ajustar o contrato, tudo de boca claro mas não me sentía à vontade estar a pagar-lhe menos do que ela fazia. Agora está cá em casa três dias por semana à escolha dela, vem quando acha que deve vir, não me importuna com conversas e responde quando lhe faço perguntas sem andar com rodeios. Por isso quando hoje de manhã me disse que o tapete devería ser limpo não me zanguei. Também não lhe respondi. Tirou uma garrafa de um saco de plástico, serviu dois copos, fechou a janela e disse senta e sentou-se. Senhor não tem que esquecer, disse ela com a voz de caramelo e como eu não me tinha mexido do sitio ela levantou-se, trouxe o copo até à minha mão e bebeu de um trago. Eu fiz o mesmo. Até as lágrimas me vieram aos olhos, isto é álcool puro porra! Queres matar-me? Bebe, muito bom e bateu-me no peito com palmadinhas que ressoaram, senti um incêndio, mas logo a seguir passou e soube bem, muito bem. O que é isto? Senta, senta e voltou para a cadeira. Sentei-me e avancei o copo para mais um, o que eu preciso é de esquecer, ela abana a cabeça, nunca senhor, nunca esquecer...
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