Acordo com o barulho das chaves a tilintar na mão da russa à porta do quarto e a voz de caramelo a dizer-me para ir tomar banho que homem grande não pode ficar na cama até à noite, tapo a cabeça, odeio esta mulher que acerta nas coisas e desejo ardentemente estar a sonhar, não sentir o cheiro de comida e que tudo desapareça, agarro o meu membro entre pernas e apetece-me ter uma mulher, apenas o acto em si, nada de outras coisas ou outros pensamentos complicados com frases à mistura em que se fazem perguntas e esperam-se respostas, só me quero vir e espero que a russa não volte a entrar no quarto por amor de deus porque estou quase, quase. Sinto a mão a latejar ou o pénis ou a testa ou o pescoço e a voz da russa lá para dentro mas não sou capaz de responder, deixa-me daqui a um bocadinho já te digo tudo mas não agora miséria, tens de perceber que há momentos que são só meus e acabaste de me entrar no sono, no quarto, nos lençóis, na pele, é a tua voz que se infiltra, dá-me um tempo por favor. Aparece à porta do quarto com uma chávena de café e pergunta-se se estou decente, não te respondo russa mas obrigado.
Olho para esta porcaria e não vejo nada, nada que se diga que se veja, que se diga que presta, trabalho de merda e o outro está aqui está a sarnar-me o juízo por causa dos prazos, e elas que não me saiem da cabeça, as duas à vez e depois mais uma que a outra e a do chinelo sempre aqui atrás de mim pintada de azul, sinto-a atrás do meu pescoço e a dos cabelos no sofá a rir, a enrolar bocados do cabelo nos dedos, quando me volto não está ninguém, uma porcaria de trabalho este. Olho os florões no tecto e dói-me cá dentro, peço desculpa pela miséria que apresento aqui em baixo no estirador, não sou um génio. Apetece-me chorar, chorar e esquecer que estou sozinho sem ninguém, ter pena de mim próprio por querer voltar atrás e voltar a dizer não que se pudesse dizia não outra vez, ficava sozinho outra vez, afinal também tenho direito a ter os meus momentos de desespero que diabo. O mal disto são estas gajas, aparecem e depois vão-se mesmo que um gajo diga para elas irem não é bem para elas irem de vez. Só de vez em quando.
É noite funda e o sono foi-se, foram-se os copos emborcados para o fundo do despejo de um estomago vazado, não me lembro se hoje comi, só me lembro do rosto dela e da cabeça dela de cabelo muito rapado, os pés muitos sujos. Tanta fragilidade. Até onde os meus olhos conseguem ir já varri a calçada mas o amarelo dos candeeiros apagam mais a vista do que alumiam e não há ninguém a quem eu possa perguntar se a viu passar, há-de ir a arrastar o outro chinelo e pelo som mesmo que a não consiga ver hei-de reconhecê-la e saber que é ela, grito o nome, qual nome agora me lembro que não sei o nome dela e a estas horas não me posso por a dizer puta de um só chinelo à janela ou a berrar a miúda que tem sede ou aquela que eu provei e que tem um sabor único a azul. Está mais azul que o negro da noite, vem-me de dentro e mais fundo que o estomago, aposto é da barriga da noite.
Pergunta-me que tenho eu que estou emburrado, burra é a tua prima ó taberneiro duma figa, mas palavra de honra que dou comigo a pensar na outra casada, fiquei parvo, nunca a imaginei casada, para mim sempre haveria de ser a minha rapariga dos saltos de martelinho toda vivaça e de cabelos a mudarem de cor como eu mudo de camisa e vai-se a ver casada como é que isto veio a acontecer o mundo dá cada volta. No fundo sinto-me envergonhado. Envergonhado. Não devía ter feito o que fiz. E ela também não devía ter deixado levar as coisas por diante, casada porra e vai deixar um gajo comê-la! Está bem que fui, não foi um sacana qualquer mas mesmo assim! E ainda me pergunta o taberneiro porque é que estou emburrado? Dá-me outro e mete na conta. Daqui até lá acima preciso de muito combustível para subir a calçada, entrar e lembrar-me da cena, será que ela se lembra? Dei-lhe para ela se lembrar e ela também me deu, é melhor nem me por a pensar naquilo senão fico aqui em pulgas e a outra? A do chinelo? Que saudades... Nem acredito que pensei nisto. Anda enche outra vez e põe na conta.
Isto podía ser a repetição da cena anterior que o cenário é o mesmo e as personagens até se vestem de igual mas sendo cinema europeu não se podía esperar outra coisa, deve ser por isso que os beefs cada vez mais gostam de nós, de uma forma bárbara diga-se, mas naquele dia ou hoje vai tudo dar no mesmo. Estou eu à janela e eles a descerem a calçada que vai tudo para a manif, perguntas repetidas e respostas repetidas, já disse que não vou estou entretido a pensar no que se passou noutro dia com a outra, tenho aqui para o dia inteiro que aquilo foi uma verdadeira surpresa. Casada. Casada e vai de encornar o marido se bem que dar uma comigo não é bem traír o marido, nós já fomos íntimos, quase vivemos juntos, bem que ela quería eu é que não fui nessa, agora estaría eu com um peso na testa até parece que adivinhava o futuro. O mal disto são os saltos, aqueles saltos na escada hipnotizam-me e levam-me a fazer coisas que eu não quero ou então é o cabelo ou o cheiro ou o sabor salgadinho sei lá eu. Só sei que estávamos tão bem e de repente se levantou como uma mola e se vestiu e desatou a murmurar pelo marido que tinha de ir embora por causa do marido e eu desprevenido e nu só tive tempo de agarrar os óculos e pôr as mãos à frente do escrito. Aquela noite apanhou-me completamente envergonhado. Talvez porque ainda não era noite profunda.
Conheço o repicar desses saltos de cor e salteado mas digo para mim que é uma partida porque me lembrei de ti no 25 de Abril e até zombei da tua ignorância naquele tempo, tanto tempo, quantos anos passaram, de que cor tinhas tu os cabelos naquele dia, era uma inconstância contigo que não me dava sossego e no entanto era a tua melhor arma só agora o sei.Antes de bateres na porta abro-a, ficas surpreendida e até eu, afinal não foi uma alucinação estás mesmo aqui. Entra e tu entras devagar, os olhos a varreram a sala muito arrumada e limpa, que surpresa não é, senta e puxo-te pelo braço para mim, não sei porque o faço sinceramente mas quero sentir-te aconchegada ao meu peito e cheirar-te o pescoço e os cabelos, ah os cabelos estão castanhos de novo, que pena não me lembrar de que cor tinhas os cabelos naquele dia mas não faz mal, abraçar-te, sentamo-nos no sofá apertados e sem nada dizer, beijo-te os olhos, a boca, seguras-me os pulsos e eu páro. Não dizes nada. As tuas feições aprumaram-se com o passar dos anos e a frescura deu lugar à certeza dos sins e dos nãos nos vincos que despontam ao redor dos olhos, na comissura dos lábios. Abres a blusa e guias as minhas mãos ao teu peito. Desprezo-o, empurro a tua saia para cima, rasgo-te as meias e desvio a cueca do meu caminho, afasto as tuas pernas e só então abocanho os teus seios, desço e a minha língua encontra o teu sabor salgado, sinto as tuas mãos na minha nuca e as tuas coxas a afagarem-me as orelhas. A noite faz-se anunciar e nós dois de olhos fechados.
Estou à janela e lembro de há uns anos estar aqui com uma outra, ela de cravo de papel agitadíssima e sem saber nada de revoluções, nascida antes dela eu divertido da ignorância dela e depois nauseado da parvoíce dela. Há quanto tempo foi isso... Agora à janela só, ainda só, tanto quanto estava naquele ano, a ver a vizinhança descer a rua de cravo ao peito, cravo de carne e com perfume e a dizerem-me adeus e a perguntarem-me a este alto se eu não vou à manif, não não vou, nunca fui dessas coisas, a multidão faz-me sentir solitário. Ou talvez eu esteja descrente de revoluções porque os cravos se fizeram de papel, sem perfume e sem perguntas. Vou ficar por aqui à espera da noite. Quem sabe me traz respostas.
Bato o sebastião no balcão e o taberneiro lembra-me as contas penduradas que a última foi à má-fila e nem dei tempo de lhe dizer quanto devía, que deve ser por isso que há muito não ponho lá os cotos com vergonha e tudo, e tudo pois então, e a russa, safa-se. Quer pormenores, se é para todo o serviço, todo o serviço, limpar, passar a ferro e cozinhar. Um dos velhotes pergunta se já passei o corredor a pano, gargalhadas, é para isso que pago respondo, para não ter que fazer nenhum e tu ó velho vê lá se te cai a placa, assobios, palmas e pedras de dominó a bater a meias com o gesto de outras a bater, ainda te gastas e depois não sobras para os bonecos, deixá-los rir anda serve-me outro e vais pagar? Encosto as costas ao balcão e vejo a claridade a atravessar o tasco, às vezes vía a puta de um chinelo só a subir a calçada e pensava que desgraçada ali vai agora penso que desgraçado aqui estou a olhar para a porta que não a vejo passar. Vou pagar sim, tudo.
O tapete está limpo, nem uma mancha azulada a lembrar as pegadas dela ou pista que recorde que ela tenha estado aqui e que tivéssemos sido naquele dia dissolução de tinta em água perdida de pincel, uma agitação da memória, tudo se foi, o tapete está limpo e nada há para comparar tamanhos de pés, o meu ao lado do dela descalço e a fome insaciável que me come por dentro, talvez a russa me consiga limpar a lembrança de ti e também de mim e me dê fastio, até lá ajoelho-me e procuro entre fibras do tapete vestígios do que fomos em azul, animal que cata e nada acha para se alimentar... E no entanto, continuas tão viva e salgada na minha boca como naquele dia. A russa tinha razão, não é preciso esquecer. Só porque agora é dia não esqueço que a noite há-de retornar então porque tu haverias de te apagar em mim? Nunca.
De inicio a russa vinha uma vez por semana mas depois começou a deixar-me comida preparada, roupa passada e tive que ajustar o contrato, tudo de boca claro mas não me sentía à vontade estar a pagar-lhe menos do que ela fazia. Agora está cá em casa três dias por semana à escolha dela, vem quando acha que deve vir, não me importuna com conversas e responde quando lhe faço perguntas sem andar com rodeios. Por isso quando hoje de manhã me disse que o tapete devería ser limpo não me zanguei. Também não lhe respondi. Tirou uma garrafa de um saco de plástico, serviu dois copos, fechou a janela e disse senta e sentou-se. Senhor não tem que esquecer, disse ela com a voz de caramelo e como eu não me tinha mexido do sitio ela levantou-se, trouxe o copo até à minha mão e bebeu de um trago. Eu fiz o mesmo. Até as lágrimas me vieram aos olhos, isto é álcool puro porra! Queres matar-me? Bebe, muito bom e bateu-me no peito com palmadinhas que ressoaram, senti um incêndio, mas logo a seguir passou e soube bem, muito bem. O que é isto? Senta, senta e voltou para a cadeira. Sentei-me e avancei o copo para mais um, o que eu preciso é de esquecer, ela abana a cabeça, nunca senhor, nunca esquecer...
Nunca mais soube nada dela. Nem sequer por ouvir falar dela que a tivessem visto passar, sei lá, manca de um chinelo ou acompanhada no cliente a tentar servir-se da próxima dose, nada e até tentei o inquérito com a russa mas esta nunca viu tal pessoa garantiu-me. Vou traçando riscos direitos e mais direitos traços paralelos até ficar com os olhos irritados e saturado do mesmo quase acabo a encomenda antes do tempo, um frete monumental que desta vez nem sequer tem sido perturbado com telefonemas e perguntas sobre o andamento, parece que adivinham que entrei na linha ou nos traços, um a negro outro a azul e olho o tapete com a marca rija das pegadas, passo-lhe a mão. Pés ou mão quase aqui parecem o mesmo, foram o mesmo naquele dia, fomos um ou uma só palavra nunca dita por mim.
Não sei porquê mas envergonho-me da minha casa e quase me desculpo perante a russa da desarrumação e poeirada que aqui vai, vou puxando livros para um lado e enfiando pincéis dentro dos copos à medida que me admiro comigo mesmo da estupidez do meu discurso e do silêncio dela, afinal nada treme e nem sequer lhe ouço os passos, aliás ela cabe perfeitamente aqui dentro, abro a janela, sei que a noite ainda tarda a chegar mas quero ganhar espaço e arejar talvez mais aquilo que digo e espero se perca com o ruído do que se passa lá fora e ela não entenda do que a necessidade de entrar ar novo. Ela está especada a olhar para as pegadas azuis e eu vou-lhe já dizendo que não é para limpar isso aí não se toca e os tectos também não. Paixões diz ela como se estivesse a chupar um caramelo e depois aponta para o tecto. Pergunto-lhe o nome e ela responde russa, sorri com a cabecinha de lado mas diz que veio da Ucrânia e é engenheira informática mas que isso é de outros mundos e de outras vidas. Eu acho que é de outras noites porque afinal há mais do que uma e não só uma a chegar e quando aparecem surgem de diferentes maneiras e a minha chega só para mim, nem melhor nem pior do para a russa mas é só para mim que esta noite acontece. Peço à russa que comece no dia seguinte.
Encontros marcados pelo gajo do tasco e cá estou eu encostado ao balcão a contratar a russa, que o nome já ninguém lho tira. De ruça não tem nada, ainda gostava de saber que mania é esta que as mulheres agora arranjaram de pintar os cabelos de encarnado pois assim que lhe bati os olhos só me lembrava de uma cabeça de fósforo! Que diabo! Se eu tivesse pegado nas minhas tintas não a tería feito tão contrastante, a pele leitosa e a cabeça vermelha, os olhos manchados de azul e a boca tingida a rosa, um verdadeiro quadro a 3D mas em tamanho gigante que a mulher é enorme para cima e para os lados, os meus tectos, os meus tectos vão ruír quando este elefante pisar a minha casa e tudo abanar lá dentro já estou a ver a derrocada, acho que não a contrato mas o que é que eu digo, a mulher fala de uma maneira que parece que tem um caramelo na boca e sorri com a cabeça de lado e a voz é pequenina, nada a ver com o tamanho do imenso corpo que carrega. Diz-me que quer ver a casa e eu digo que sim. Eu quería dizer não porque digo que sim? Mas que merda! Vamos lá que quando lá chegarmos vou dizer que não.
Mais um projecto sem gracinha nenhuma mas que desta vez prometi a mim mesmo levar a sério para tentar despachar o mais rápido possível para evitar a merda dos telefonemas e das pressões sobre o prazo, não quero prender-me a gostos até porque se o aceitei já me prostituí logo não há como voltar atrás com repiques de moralidade quanto à sintonia com o espirito. Nunca estará em estado de harmonia comigo que me deixe uma extensão de mim e eu entenda que feito e fazedor somos um até se decepar a vontade do olhar e concluído satisfizer a vontade de outros. Novo ciclo se iniciará então. Mas não com esta bosta, esta coisa disforme de que estou incumbido são traços preenchidos a cor que outros podem chamar de projecto, ou chamo-lhe estafermo que ocupa e suja o meu estirador. Salva-me a honra quando olho para baixo e vejo azul, azul de pegadas que se dirigem pela casa fora como a noite quando entra casa dentro. Avé azul!
Um dos velhotes pergunta-me se já arranjei uma mulher para me limpar a casa e eu digo que não graças ao gajo da tasca que ficou encarregue do assunto e não me liga pevide, o palito entre os beiços ignora-me e serve-me outro à laia de tá bem já me tinhas dito, e o velho segue a conversa com uma pequena muito jeitosa russa que tem andado a meter papéis nas caixas dos correios. Como é que tu sabes disso ó velho mas o taberneiro com o pano enxota as migalhas para o chão e de escarninho e cotovelo no balcão gorduroso informa que o velhote é sabido, ligou para a pequena e contratou-a mas não foi para a limpeza quería que lhe desintupisse os canos só que a russa não foi na conversa, deu-lhe umas todas e ainda avisou a mulher. Batem as pedras do dominó e riem, soltam as placas das gengivas, rio, fazem-me rir, não com muita força mas fazem-me rir, serve-me outro que me quero rir mais preciso de rir e esquecer tudo e também preciso dessa russa que sabe o que quer e sabe por as coisas no sitio. O sebastião enche-se até um fio encarniçado sobrar e marcar o balcão de mármore amarelado pelas queimadelas do tempo e das beatas perdidas fora do cinzeiro, agarro-o e molha-me os dedos, sempre disse ruça de má pêlo quer casar e não tem cabelo esfrega o taberneiro, vou explicar que não é a mesma russa mas não me apetece e perdía-se a piada, vazo o copo e saio sem pagar intencionalmente.
Uma fotografia, uma noticia de jornal, uma carta da irmã dela com mais de um ano e documentação da embaixada a embrulhar tudo. Não há coincidências e eu não acredito em premonições, não sou um homem dado ao esoterismo sempre tive os pés assentes na terra mas é inevitável que o maldito pesadelo não me venha a boca como um bolsar azedo que se cospe de má cara, para quê lembrar o que estava enterrado e afinal quem está enterrado é ela, morta, uma morte sem significado daquelas que se costumam rotular como danos colaterais, uma chumbada perdida e ela achada no caminho, ela e o que carregava na barriga, a irmã a dizer que era meu e manda uma fotografia de quando nós éramos muito felizes, não tenho memória de retratos a dois nem de quando fomos muito felizes nem de saber que ela carregava um filho meu , só sinto a trovoada sobre o meu crâneo como um martelo. A esta altura já serão comida de vermes, principio de terra, tudo a desfazer-se tal como os sonhos quando se acorda sejam bons ou maus, a minha tristeza ficou lá, o filho que não tive está plantado na terra e no ventre-mãe e do que restou faço fogo para que regresse às cinzas, hei-de soprá-las janela aberta quando a noite se apresentar e aí, talvez aí essa fotografia não minta e sejamos realmente felizes.
Estou a meter a chave à porta e cucu! Surpresa, a vizinha! Ora não é tão bom termos vizinhas que estão à coca para saberem quando estamos a chegar? Uma cartinha, e vai agitando a porra da carta à frente das minhas mão como se fosse uma borboleta que não consigo apanhar, deve ser uma coisa importante, veio pela embaixada vizinho não é que eu meta o nariz nos seus assuntos mas o carteiro estava a entregar o correio e como boa vizinha e cristã que sou, já sei vizinha, agora pode entregar muito obrigado, olhe que tem um lindo selo e o meu filho até faz coleção se o vizinho, agarro a carta e enfio-me em casa, dou à chave quase que aposto que é capaz de me arrombar a porta para me sacar o selo, uma destas agora, uma carta de África. Não quero cartas de África. Olho para as pegadas azuis e sinto uma raiva enorme dentro de mim. O que eu preciso é de um copo. E da noite adentro. Seja lá do que for. Talvez a noite dentro de um copo. Bebê-la e resolver tudo.
Tive um estranho sonho esta noite acho que foi um pesadelo, logo eu que raramente sonho, dizem que todos sonham podem é não se recordar, mas eu afirmo com propriedade que não sofro dessas coisas, felizmente não me perturbo com devaneios da mente adormecida e se os tenho é porque bebi demais ou o vinho era uma zurrapa, mas esta noite sacudiram-me imagens de África e a perturbação do chamamento acordou-me de coração disparado de tal modo que nem sabía onde estava. Ela de mãos estendidas pedia-me para regressar e a pele escura brilhava recortada no contraluz dos relâmpagos deitada ao meu lado, o branco do lençol na curva da anca sobressaía com a minha mão por cima dela, eu repetia que voltava, que voltava e ela sem voz só pedia, pedia, uma coisa sem fim que se repetia até que estourou um trovão e eu acordei. Lembro-me dela com uma nitidez impressionante, cada detalhe do rosto, do corpo todo e do som da voz, do ciciar da voz quando cantarolava a lavar a louça, nunca percebi porque cantava quando lavava a louça, porque se calava num silêncio profundo e sem se escutar sequer a respiração quando nos deitávamos, era tranquila e feliz mas não sei porquê fazia-me tranquilo e imensamente triste, uma tristeza calada, profunda e interior como nunca havia conhecido. E nem as noites de lá afastavam a tristeza que se cavava cá dentro, simplesmente porque eu gostava, cada vez gostava mais. E agora sinto-me estranho, quase triste como lá.
Dela restaram pegadas secas azuis de lá para cá que tento não pisar para não as apagar, passo ao redor, já pousei o meu pé ao lado das marcas tão definidas como se fosse um padrão do próprio tapete que tivesse sido urdido na fábrica, tamanhos diferentes, o meu um pé gigante comparado com a pequenez do desenho tatuado dela, cambiantes de azul conforme foi andando e perdendo a marca. Quase parece uma carta de despedida. Um aviso. Uma lembrança a desaparecer com o passar dos tempos, de lá para cá, de cá para lá. Porque raio fui eu adormecer naquele dia e não me apercebi que ela saíu? Já passei a casa a pente fino e não há mais nada que me diga que ela passou por aqui, nem sequer um cabelo, um chinelo solitário, qualquer coisa que pudesse deitar as mãos e fechar os olhos e apertar. Se a vizinha não a tivesse visto ía dizer que estava louco, melhor que a noite chegasse durante o dia pleno e tudo estaria sossegado.
Entreguei o trabalho limpo, asseado, cirurgicamente dentro dos parâmetros do programa do cliente e com uma quinzena de atraso. O que agradou em qualidade ao cliente desagradou-o pela falta de cumprimento. Caguei. Não me deu o mínimo gozo fazer esta merda e fi-lo porque precisei do dinheiro. Querem mais. Não sei se quero, ponho alguns entraves e falo de projectos para outro cliente que não existe mas eles não desistem e oferecem mais dinheiro, digo que vou ver a agenda e que depois digo qualquer coisa, a verdade é que não me apetece fazer nada para este gajos é tudo coisa sem o mínimo interesse e a minha cabeça está cheia de riscos que preciso de fazer em murais suficientemente largos que comportem a idéia. Até lá quero que a noite me engula e que ninguém me chateie. E de preferência que não se lembrem de me telefonar, deixem-me, quero estar sozinho com os meus riscos e construír uma prisão com eles.
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