Começa a tornar-se insuportável esse tom. Já nem sequer percebo o que dizes, não quero saber, mas incomoda-me o tom da tua voz, temo que caiam os florões, a caliça, o estuque, trabalhos de valor e que perduraram pelos séculos para tu agora aqui chegares e dares cabo disto em três tempos. Não quero ver isto em fanicos, vê lá se te pões a andar daqui, está a começar a faltar-me o ar e a pachorra, porra, que merda de arrependimento que sinto por te ter tocado! Ainda por cima não foi nada de especial, nem recordo como eras, como éramos quando nos comíamos, porque tenho a certeza que nos comíamos é essa lembrança que me vem à memória e agora a porra dos tectos a ruírem não tarda nada, rua! Rua! Rua!!!
Começam as recriminações, que eu não paro de olhar para o ar e não ligo ao que estás a dizer e que é importante e que deixaste de ser importante na minha vida. Não sei se te responda pela mesma ordem mas até é verdade e é uma descoberta bem recente. Se não tivesse ficado deitado de costas depois de darmos a queca não me teria apercebido da beleza e da riqueza dos tectos que tenho na minha própria casa. A verdade é que a tua conversa está a aborrecer-me porque é a continuação do que já conheço, apenas não me lembrava. E também é verdade que descobri que não és importante na minha vida. Só te achei importante quando não te tive. Hoje e agora estafaste uma cova num plano liso, passa-se bem, quiseste há alguns anos pores a falar-me como um boneco de um ventríloquo e queres tentar o truque de novo. Não vou dizer a palavra, não acredito nessa estúpida palavra. Na verdade, não te vou responder, vou esperar que acabes o banho, te vistas e pedir que não voltes. É mais higiénico.
A trabalheira que estes gajos tinham para fazer os tectos! De facto naquele tempo havía tempo que sobrava para fazer tudo e até para isto, e passado estes séculos eu estar aqui a pasmar de adoração a olhar para esta perfeição. E não havía cá nada de máquinas ou coisa em série, era tudo à unha, quanto muito um artesão a fazer um molde e depois o gesso, a flor de liz, uma perfeição, já não se fazem coisas destas. Já nada se faz perfeito, nada. Tudo é imperfeito e há um gosto pelo imperfeito. Aos anos que aqui vivo e no final de dar uma acontece-me ficar aqui a olhar para o tecto e aperceber-me desta beleza mesmo por cima da minha cabeça... Ele há coisas! Perguntas-me em que é que penso. Em nada. É melhor vestires-te e ires embora. Tenho de trabalhar e estou atrasado. E não telefones, sabes como abomino telefones, depois logo se verá como nos encontramos. Queres falar, dizes, agora é que queres falar, mas não te vestes e não vejo porque não possas fazer as duas coisas em simultâneo e vais de caminho para a minha casa de banho e eu atrás, sem entender onde arranjaste esse á-vontade para te movimentares pela minha casa. Lava-te. Eu fico aqui a olhar para o tecto.
Que mania que as mulheres têm de falar de coisas que já passaram. Não dá para perceber. Se pintas o cabelo de encarnado porque eras morena ou loura porque razão teimas em repisar assuntos que estão fora de moda? Digo-te que aquilo que fomos já não somos e aquilo que és agora é o que temos, nada mais, sabemos lá nós como nos damos agora passado todo este tempo, conta-me de ti, o que fazes, como vai a tua vida mas tu mudas a agulha e pedes-me que fale das minhas aventuras, que disparate esse pois se a minha vida é do mais pacato que se possa imaginar e tu não estás de meias medidas e dizes-me que vais mudar isso, isso o quê pergunto eu, essa vida de freira respondes e desabotoas a blusa a olhar-me desconcertadamente, depois tiras os seios para fora do soutien e ficamos os dois neste silêncio absurdo pois na verdade, somos dois estranhos. O que é que se passa nessa tua linda cabecinha ruiva para tentares forçar o que não pode acontecer hoje, agora, já, pois saltamos vários anos da nossa vida e as coisas não funcionam assim. Vou até ti para te compôr mas agarras-me e começas a respirar de uma maneira ofegante o que me parece excessivo. Gostava de ter os meus óculos de ver ao perto aqui à mão para me aperceber do relevo da tua pele ao pormenor. Tocas-me, mordiscas-me e aos poucos fazes-me esquecer o que é conveniente e o que é demais, estamos os dois no sofá, no chão, ergo os olhos e vejo a minha janela toda aberta.
Magia. Uma simples frase e tudo volta a ser como era dantes. És mesmo tu sem sombra de dúvida com cabelo de outra cor e alguns atrasos na performance mas cá estamos nós no ponto onde parámos. Uma tecla premida no comando para tomar fôlego por alguns anos e lá vamos nós ao mesmo. Acontece que eu não pintei o cabelo, aliás perdi foi cabelo e muita da pachorra que tinha para te aturar as birras, por isso se pensas que vens para tirar satisfações dá meia-volta ao cavalo e vai por onde vieste. Perguntas de novo se nada tenho para te contar, por onde andei estes anos e agora vou responder-te silabicamente que já recuperei o som na voz mas vens para mim de braços esticados, apertas-me contra ti tão fortemente, agarras-me o pescoço com a mão, tens a mão gelada que me fazes arrepiar todo. Não digo nada, abraço-te. Depois num rompante afastas-te, olhas-me a chorar e eu já não percebo nada, é para sorrir ou não, voltas a abraçar-me e dizes-me coisas ao ouvido que não percebo, devo estar a perder a audição também a par com a vista, estou velho. Nem tanto, sinto um calor progressivo que me toma entre os joelhos e quero afastar-te docemente para que não te apercebas, é que não estou totalmente à vontade, peço que te sentes mas insistes nestes segredos indecifráveis até que te levo ao sofá e te desenrosco do meu pescoço. Protejo a frente das minhas calças com as mãos e sento-me no banco do estirador, vamos com calma, isto é tudo demasiado para mim, chegas ruiva e silenciosa, depois a pergunta, logo a seguir estes apertos, calma. Dizes-me que tens saudades de mim, daquele tempo, se podemos ser nós outra vez.
Por cada toque na porta o coração quase me salta. Aguento-me. Tudo me vem à boca em golfadas e a veia do pescoço dói-me por ser tão doida nestes segundos em que me prendo ao parapeito da janela para não arrancar a porta e ver-te já. Preciso de esperar e mentir-te, fazer-te esperar enquanto os segundos, dois, três, quatro, cinco, já terão passado o bastante para não demonstrar a ansiedade que sinto. Ando até à porta e calco com força o chão para que me ouças vivo e longe da porta sem estar à tua espera. É agora. Abro e és tu. Não és tu. Fico a olhar-te e embora saiba que és tu confesso que não estava preparado para isto. Perguntas se não te deixo entrar e eu estou tão surpreendido que até perdi a voz. Pousas uma pequenina mala vermelha em cima do meu trabalho no estirador e aproximas-te da janela. Abres os braços ao longo do parapeito. O teu cabelo à contra-luz é uma chama incendiada. Lembro-me de ti morena e loura mas ruiva nunca te tinha visto e palavra que és uma nova mulher. Estou impressionado pelo teu silêncio sobretudo, meia-dúzia de palavras para entrar e esta encenação que me deixa intrigado e atiçado. Não és tu. A veia voltou ao sitio e neste momento tenho a certeza que o meu coração já deixou de bater, não o sinto no peito, tenho a boca seca e não consigo articular uma palavra. Viras-te, traças os braços e perguntas se não tenho nada para te dizer.
É cedo e é Domingo e eu já estou levantado porque tenho o trabalho que já devía ter sido entregue para acabar a ganhar pó em cima do estirador e a servir de base aos copos que vou substituíndo por outros cheios à medida que lhes vejo o fundo circular. Gosto de ouvir os passos na calçada que descem à medida do seu desaparecimento e lembro-me que na minha ausência recordava-os igualmente nas manhãs de silêncio enquanto a mulher ao meu lado dormía desconhecendo o ruído que eu trazía para o quarto para não me sentir tão só. Deve ser esse o meu problema. Nunca me sentir acompanhado com mulher alguma mas sentir mais a sua presença quando estou longe delas. Hoje sinto aquela mulher de pele negra e brilhante sentada no meu sofá a observar-me as costas enquanto trabalho dobrado no estirador. A linha das pernas dobradas a par e enviuzadas sobre a direita empinando os ombros e os seios grandes de mamilos escurissimos. Sei-a nua. Já me virei para a ver diversas vezes, já me levantei e apalpei o estofo à procura do quente de quem se levantou à pouco. Talvez tenha descido a calçada e a veja da minha janela. É dia azul e claro, tanta luz. Ouço saltos na escada de madeira, quem será a esta hora, batem na minha porta, batem no meu peito. Hoje sei quem é.
Sou uma besta. Não devia ter tratado a miuda daquela maneira, agora estou aqui roído de remorsos por lhe ter atirado com a porta na cara e lhe ter negado mais água, que bebesse o Tejo se tinha sede e se ela levou aquilo a peito e se atirou, sabe-se lá que merda de vida tem uma gaja daquelas, drogada, completamente drogada, capaz de fazer uma loucura no desespero. Teve uma lata enorme vir aqui bater-me à porta, um desconhecido, eu. Cliente. Bater à porta do cliente a pedir água. Ainda por cima nem me serviu da outra vez. Paguei e não fui servido. Apalpou-me e não comi. Marketing fraudulento. Uma puta de chinelos de meter o dedo. Bem sujos por sinal. Deve ter andado descalça, quem sabe. Se se tivesse enfiado na minha cama sujava-me a roupa. A menos que o fizessemos em pé. De pé. Estou a sentir-me em pé de guerra e vou aproveitar a oportunidade com ambas as mãos. Literalmente. Antes que me caia a noite.
Água. Diz que quer água. Olho-lhe as pupilas, pequeninas como cabeças de alfinete, os dedos dos pés, pequeninos e sujos como amendoins descascados. Ficamos à porta, para este lado não entras, bebe lá a tua água e põe-te a andar, vai curar a tua pedrada para longe e não voltes que isto aqui não é o bebedouro público, porque não foste à taberna, já tinha ido mas correram com ela, e eu com isso? Só me faltava esta, eu à espera da outra, o coração em cima da lingua pronto a cuspir tudo e aparece-me esta fuínha, no que é que eu me fui meter naquela noite em que tudo estava pardo como o raio da zurrapa que bebi, agora não me larga, é andor, não venhas cá mais, estás a ouvir? Quer mais água, está seca, não há mais água, se tens sede atira-te ao rio, fecho a porta como um tiro e odeio-me. Porque merda havía de ser esta a aparecer em vez da outra se eu já estava preparado para vê-la ao fim de tanto tempo. Agora já não estou, que não venha mais. Que nada venha mais, deixem-me em paz ou desapareço.
Os nós dos dedos muito leves na madeira da porta. Fico sobressaltado, serás tu, não te ouvi os passos, ainda me recordo dos teus saltos como castanholas que adivinhavam o teu humor e me consentíam estar preparado para o que aí vinha. Agora não sei, apanhas-me de surpresa, os anos passaram e sinto-me como um rato que farejou o odor do queijo e desprevenido se deixou entalar na ratoeira. De novo o toque na porta quase como um raspar a pedir para entrar com muito cuidado. E se eu fizer de conta que não estou, sustenho a respiração, engulo em seco, tenho a certeza que ouviste eu a engolir em seco e que até consegues ouvir as pancadas que o meu coração dá contra os ossos do tórax, isto é tão estúpido, um homem como eu a fingir dentro da sua própria casa que não está em casa. Levanto-me devagar do banco alto do estirador e como um gato caminho até à porta. O sobrado estala e trai-me, as casas velhas são as pessoas que nelas moram, não posso evitar abrir a porta e ver-te. Escancaro a porta. É a prostituta dos chinelos.
Ainda mal tinha rodado a chave na porta já estava a vizinha a perguntar se era eu. Quem havía de ser, só se fosse alguém a assaltar-me, mas não lhe disse, quería dar-me um recado sobre a minha noiva que tinha cá vindo e que até tinha ficado muito contente passado tanto tempo ainda estarmos juntos, coitadinha, isso é que ela tinha chorado que nem uma madalena quando o vizinho estava para fora. Fico sempre aturdido com a conversa desta mulher. As informações desenrolam-se a um nível e velocidades que sou incapaz de acompanhar. Tive que pedir que repetisse e por partes. Que noiva, que choradeira? A minha, a dela claro. Fartou-se de chorar quando cá veio e eu não estava. Claro que não estava, pois se estive vários anos fora e se não tenho noiva, só pode ter chorado e a seguir quem chora sou eu porque estou a ficar doido com este recado! Decido fingir que percebi para me ver livre da vizinha e meter-me em casa. Abro a janela. O dia está alto. Tudo se junta como pedaços espalhados. Hoje vai demorar muito até a noite descer sobre mim.
Decido-me a desfazer as malas. Tento encontrar-lhes o cheiro da minha casa mas a minha casa é esta onde agora moro, onde sempre morei a maior parte da minha vida. As ausências sempre foram fugas achadas para escapar ao que me incomodava em casa e naquele tempo, a maior perturbação era eu. Fugir de mim ou fugir de casa é um conceito velho. Fugir das palavras que ela quería que eu lhe dissesse, fugir das palavras que acabei por dizer para mim, já sózinho. Ainda bem que não lhas disse, tería sido um tremendo erro, afinal estava tudo certo. Nestas malas não há nada senão roupa, nem podería haver. Fugir para me prender tería sido uma condenação pior do que dizer palavras que não podem ser ditas. Assim está tudo bem, como deve ser, arrumam-se as coisas, nunca mais precisarei destas malas outra vez.
Não sei que mulher é essa que ligou para a taberna. Não deixou nome. Perguntou por mim, quería falar comigo e não deixou nome. Não sei quem terá andado a ligar cá para casa e a desligar quando atendía. Não sei como fui esquecer-me dos óculos na taberna, se nada vejo ao perto sem eles. Não sei porque o material que uso está em ruptura e também não sei porque razão não me apetece trabalhar. Sinto-me desencaixado. Sinto-me apertado dentro da minha casa. Abro a janela ao final da tarde e vejo o dia a morrer e sem saber porquê, sinto um bocado de mim a ir-se com ele por cada vez que esse gesto de atirar os olhos além me condena. E me acalma e pacifica. A noite chega.
Batem-me à porta. Deve ser cedo. Não consigo ver as horas porque definitivamente perdi os óculos. Não consigo achar as calças, embrulho-me ao lençol e pergunto de dentro quem é. É da taberna. Um recado. Não percebo. O patrão falou comigo há pouco tempo, o que é que será agora, mais prazos, que chato de merda esse gajo, não sabe que tenho o meu tempo e a porra do material que uso não aparece, que inferno. Do outro lado da porta falam e eu não percebo nada. Abro uma nesga. Fala de uma mulher que ligou. Não percebo, continuo sem perceber. Peço que ele entre. Ele entra e dá-me os óculos. Agora tudo faz sentido. Sinto-me vestido. Claro. Uma mulher que ligou, não tem nada a ver com o patrão, onde é que eu fui buscar essa do patrão, ele tem o meu número de telemóvel. Uma mulher que ligou cedo. Que horas são isto, são horas de almoço, responde o da taberna. O problema é a falta de visão. Deixa-se de ter o alcance sobre as perspectivas.
Atendo, desligam, toca, atendo, desligam, toca, não atendo, não se cala, arranco o fio da parede, pára o som irritante de insecto histérico. Agora o telemóvel. Atendo, não consigo ver quem é porque não encontro os óculos. É o patrão. Sim. Sim. Sim, pode ser, também. Adeus. Não gosto de telefones. Sinto-me um idiota a falar com telefones, nunca gostei de telefones. Não se fala para a pessoa, fala-se para um pedaço de plástico. Evito, sou antigo, gosto de olhar as bocas, os dentes, as linguas, ouvir com todos os sentidos. Só em último caso é que uso o telefone. Metade do que o patrão disse ignoro, sinceramente. Estive a pensar onde estarão os óculos. E quem terá estado a divertir-se a ligar para o outro telefone porque ninguém sabe do meu regresso. Se apanho o cretino, vai ver. Não me entendo porque me irritei tanto. Pasmo, estou pasmo comigo mesmo, desconheço-me.
Por mais que me atirasse sobre o plano este nunca deixou de estar como sempre esteve, mentira, ficou com alguns circulos do fundo do copo, uma bonita cor aguarelada impossível de reproduzir à força de pincel. Belas marcas, belo tinto, boas memórias. Quase sinto um alívio de pequena alegria. Ou um cansaço sobre o pescoço pela falta de sentir a respirarem por cima de mim, os cabelos a fazerem-me comichão sobre a nuca nas tardes de electricidade vermelha que antecedíam um calor peganhento e num segundo rebentavam os tímpanos na água a direito. Era nessas tardes que eu melhor mentía, tão fácil dizer que havía de voltar se nem a mim eu conseguía ouvir. Depois tudo passava. Até o medo. O das perguntas. Porque havía sol claro e África era só um continente, não era a mulher que se deitava comigo antes do anoitecer.
Ao subirmos a escada apercebo-me que não há qualquer ruído a calcar os degraus o que me deixa uma sensação estranha pois o minimo que esperava era um som picado, uns saltos finos na madeira moida pelo tempo, mas nada. Só quando abro a porta de casa e a convido a entrar à frente e a miro nas costas é que me apercebo que vem de chinelos. Chinelos de borracha, devo estar grosso de certeza, paguei por uma prostituta de chinelos de enfiar o dedo, ao que eu cheguei ou então ao que ela chegou, devo ser o último do dia, vai-me despachar num ápice, lavar-se e vai a correr para o chulo entregar-lhe o guito e eu que me lixe. Já não bastava eu ter de pagar, dantes eram elas que me davam borlas agora isto. Senta-se, levanta-se, mexe nas coisas, toca-me nas partes, está visto que quer aviar-me num instante. Peço-lhe que saia, já lhe paguei, ninguém fica a perder, pede-me água, dou-lhe água. Vejo-a beber até deitar água pelos olhos, é uma criança, que idade tens tu mas ela desaparece mais rápido que a noite quando chega.
Trabalho é coisa que não falta mas o material parece ter-se escoado assim como as casas da especialidade. Já bati quase todas onde costumava abastecer-me e delas só resta o número de policia. Pior que isso é que nunca ninguém ouviu falar que alguma vez tenham sido de outra coisa do que aquilo que agora são. Pergunto-me se terei voltado para o mesmo sitio, já que até a minha casa não me parece tão minha e a cama evita-me tanto quanto eu a ela. Vou alternando o sofá, o estirador e a janela enquanto os entermeios da memória me punem com clarões de luz que me cegam em que uma mulher loura, uma mulher negra e um esboço de mulher se sentam a meu lado no mais completo silêncio. É ensurdecedor ouvir-me.
Não consigo dormir e não consigo sonhar. Desabituei-me da condução pela direita e tudo o que um homem deve fazer às direitas eu pareço ter perdido num mato esquecido que muito procuro e só acho cimento e arames. Encostei o carro. Vou até à taberna onde os outros ainda me conhecem e me chamam o nome. De resto nada parece saber de mim e eu não me incomodo. Nem sequer desfiz as malas embora saiba que não há retorno e tento convencer-me de que devería sentir tristeza por tal mas não sinto, não sinto nada, sinto-me anestesiado e pronto para ser cortado e depois cosido e depois com uma palmada no ombro pronto a andar. Só não sei para onde. Talvez para dentro de casa e desta para a taberna, rua acima, rua abaixo. Até que a noite se lembre de me visitar e acordar em mim o sonho que parece ter adormecido com uma anestesia tão profunda que entrou em coma.
Não é pó o que cobre os anos do esquecimento, são terras vermelhas que se acamam à medida do que se vai pedindo em troca do menos bom. Nunca achei esta casa tão pequena como hoje e no entanto nem ela mirrou e nem eu cresci, muito pelo contrário, os anos encontram-nos na posição inversa. Habituei-me a vistas largas e sem esquadrias, para que servem janelas se os olhos rodam ao largo e tudo o que se pode alcançar ao mesmo tempo é apenas aquilo que o corpo permite ver, de que me servem estes vidros tão sujos se os meus olhos trazem colados o horizonte vermelho? Talvez o melhor seja deixar-me de retóricas, lançar o pó ao barco que me trouxe e afundá-lo antes que seja dia.
Subscrever:
Mensagens (Atom)