Ouvi-te a subir as escadas, nada daquele pique-pique que me lembra castanholas, uma coisa lenta e arrastada, quase a dar para contar as passadas, só um toque na campainha sem o tipico morse, pergunto-me o que virá por aí, entras, até os gestos são lentos, atiras-te para o sofá calada. Que é que se passa? nada, nada? nada, mas sei que esperas que eu insista, que te faça a pergunta de várias maneiras e por diversas vezes até parecer que aceitas e que mereço as tuas confidências, estou preparado para tudo. Cansaço. Não tens descansado, não andas a dormir bem, o suficiente? Atiras-te a mim como gato a bofe, não percebes nada, não é desse cansaço é deste, mas qual? Deste! Então não se está mesmo a ver qual é o cansaço? Eu não, por isso fico calado e quieto, temo que se disser mais alguma palavra que seja ainda me enterre mais embora não saiba de que sou culpado mas que sinto que sou, sou. Choras, falas ao mesmo tempo, a voz soa distorcida e não percebo o que dizes mas não arrisco a pedir para repetires. Dou-te um lenço, quase me arrancas a mão, dizes spm, estou a zeros, não percebo, será um código, uma sigla, o morse, isto é mesmo dificil, sais disparada e bates com a porta. É aí que a noite começa a entrar na minha sala e conforme a luz se vai assim percebo claramente o teu ciclo.
Que é isto? Esboços, ensaios, trabalho, vá lá diz a verdade, sou eu não é? Não, não és, sou sim porque não dizes, e não o digo porque não és mesmo tu, é trabalho, mas insistes nessa teoria de que te desenhei e embora já tenha dito que não parece que não acreditas. Mas amuas, amuas mesmo, encaixas-te no canto do sofá a dar à perna e veladamente vais tricotando criticas ao meu trabalho, coisa menor, quem faz bonecos não se pode dizer que seja trabalho, nem te digo nada, sei bem que esperas que me defenda mas isso é o que tu queres, arranjar pé para me atacares só porque o esboço não é de ti. Só me faltava isto, ciúmes do trabalho, ou usando as tuas palavras dos desenhos animados e até já sei o que vem por aí, se não és tu quem é e qualquer coisa que eu diga há-de ser sempre o contrário. Hoje deu-te para isto e não há nada a fazer. Como é que alguém pode ser tão diferente de um dia para o outro, tenho algumas dificuldades em lembrar-me de ti ontem e ver-te hoje a vulgarizares o entardecer...
Uma imagem vale por mil palavras e ontem valeu por todas as inventadas e ainda mais aquela que me deixa os nervos em franja e que felizmente nem afloraste. Ainda bem, porque ontem foi tudo perfeito e era uma pena se viesses com a conversa do costume. Bom, perfeito perfeito... lá se foi o trabalho e hoje vou ter de trabalhar por três dias mas que se lixe, ontem foste uma mulher fantástica, dominaste completamente o meu estirador, arrumaste os desenhos animados num chinelo e conseguiste uma luz que nunca te tinha visto, estavas linda, linda e perigosamente sedutora e envolvente. Não há palavras que consagrem em justiça a imagem de uma mulher ao entardecer, a tua imagem sob o meu corpo, as tuas expressões, o húmido da boca, tudo. És fabulosa, ainda bem que to disse. E agora ao trabalho. Se conseguir concentrar-me...
Dormi mal, preocupa-me o atraso dos projectos, aliás acordei várias vezes ao longo da noite e para além do trabalho também tu ocupaste uma parte considerável da minha atenção, não pelas mesmas razões mas directamente consequência da minha ralação. Hoje virás de novo e tentarás distraír-me do estirador, não consegues entender que isto é serviço e lá porque me vês trabalhar em casa ficas a achar que não passa de um entretenimento, uns bonecos para eu me ocupar como um passatempo enquanto tu sim, no duro, das nove às cinco a aguentar a inveja de umas gajas que se vestem mal e te copiam. Nem vou argumentar claro, tempo perdido. É engraçado é que é sempre nestas alturas que te dá a tesão, insinuas-te, interpões-te nos desenhos animados e o meu peito, abres a blusa devagarinho com um sorriso malicioso e eu acabo por mandar às urtigas os prazos. Devía usar da mesmíssima frase com que me costumas castigar, só pensas nisso... São as metamorfoses e ainda é madrugada.
Não convinha nada que aparecesses, estou cheio de coisas para fazer que já devíam ter sido terminadas e entregues, um dia bastava e despachava isto, uma tarde, só peço uma tarde comigo e os desenhos animados como tu lhes chamas quando olhas para o estirador. Mas é certo que hoje apareces, deves querer arrastar-me para qualquer sitio, a conversa de ontem foi o banho-maria, tu achas que eu não percebo e eu até permito que assim seja, pelo menos evitam-se os amuos e o discurso de dedo apontado de véspera, já bem basta o que acontecerá inevitavelmente hoje quando eu disser que para mim não dá para andar em saídas que estou atolado de prazos para cumprir, e nem te chego a dizer que o ideal sería não apareceres, se o dissesse era o bom e o bonito. Desatavas a competir com os desenhos animados ou com o entardecer. Nunca irás compreender o que se passa comigo antes de anoitecer... E eu sou incapaz de to explicar. É o meu segredo assim como também tu os terás. Pronto, ouço-te os saltos a picarem a escada. Aí vens tu.
Sabes que dia é hoje? ía responder sexta-feira ou não sei mas não disse nada, que é que me escapou, e se não me lembrar rapidamente vou ser crucificado e aí sim, terei razões para me lembrar que dia é este que não me diz nada em especial. Mas como fiquei calado deves ter lido na minha cara que estou à toa o que para ti é o equivalente a um parece impossível, tu não ligas a nada, para ti nada é importante. Claro que é, mas hoje não estou mesmo a ver o que seja particularmente importante e a verdade é que quanto mais puxo pela cabeça mais perdido fico. É imperdoável, isto só significa a importância que nos dás, nem te lembras que estamos juntos faz hoje seis meses, meio ano, olha que quer dizer alguma coisa não achas? Claro que quer dizer mas datas nunca foram o meu forte e se é isso que se comemora que tal enroscarmo-nos, mas fico calado, tento aconchegar-te ao meu peito e acarinhar-te o cabelo e tu esquiva rematas com um só pensas nisso. É nestas pequenas grandiosas coisas que a noite se destaca, está cá sempre e sempre para ser lembrada . É a noite. É a noite e está tudo dito.
Aí vens tu rua acima, os saltos a cravarem-se entre as pedras da calçada e o aceno para mim até ao parapeito onde me encosto. Vou deixar que subas e batas à porta, perguntas se não te vi lá em baixo a dizeres adeus, eu digo que não mas claro que perco a inocência quando esticas o beiço, rio e chamas-me parvo, beijo-te e por momentos o silêncio. Depois a janela aberta deixa entrar as vozes da rua e tu muito decidida fazes da minha sala o teu púlpito e corres com esses sons invasores. Do tema dos últimos dias nem sombra, acho fantástica esta tua capacidade de fazer de conta que estas variações com que apareces não existem, falas do tempo, da chuva e do calor, fechas a janela para que eu não me perca da tua conversa mas sinceramente pouco me entra do que dizes, estou mais ocupado a observar-te hoje e a comparar-te com o ontem. És muito mais parecida com o caír do dia do que possas imaginar.
Traçaste a perna e abanaste o pé enquanto me ías dizendo que o grande problema da nossa relação é eu ter medo de assumir compromissos. Lá voltamos nós ao mesmo, mas hoje não há disposição para isto, regressas para me dizer que eu tenho medo? Não te respondo, dou-te a corda toda, vais cansar-te, isto é ciclico já sei, depois esqueces e daqui a uns tempos de novo a mesma ladainha, só que eu começo a ficar saturado de saber o que me espera, não basta viver o que temos e gozar o melhor possível? Falas, falas, falas tanto que deixo de te ouvir e começo a pensar noutras coisas para além de ti e de mim, desta sala, vou lá para fora, penduro-me nos candeeiros e observo a rua deste ponto critico em que se me deixar caír a perspectiva da minha vista será outra, será que subo aos céus? Abraças-me, volto à sala, a ti e a mim, nem me apercebi que já te tinhas calado, entro em ti no canto do sofá onde te aconchegaste e traçaste a perna e é exactamente quando me venho que solto a mão do candeeiro onde me pendurei e fico a saber que a perspectiva que ganho é a noite que chega.
Deu-te mesmo forte, tu lá sabes mas eu também sei o que gostas destes joguinhos, deves estar à espera que eu vá à tua procura e te chame, pelo menos que te telefone com a voz meio enrolada de preocupação. Não estou preocupado, simplesmente não tenho espaço para este tipo de coisas nem tão pouco vontade para as alimentar, daqui a nada apareces aí com uma novidade qualquer, é mais forte do que tu, tens necessidade de te fazer ouvir, tipo prestares declarações, fazeres finca-pé no teu ponto de vista. Aliás, nós os dois sabemos bem que se isto é para acabar não acaba sem tu encheres a minha sala do rosário das coisas que já passaram, tu não és mulher para te ires embora sem avisares primeiro que te vais embora e de dedo esticado hás-de condenar-me, isto é tudo por culpa minha. É capaz. Até da noite o sou, quanto mais...
Que raio! Hoje que não quero pensar em ti não me sais da cabeça, ele é a tua voz, o teu cabelo nas duas versões morena e loura, a tua púbis, os teus saltos a acompanharem as gargalhadas que dás e eu com tanto que fazer e a precisar de me concentrar e tu para aqui às voltas da minha atenção. Há coisas que não têm mesmo explicação: Tantas vezes já perdi o fio da tua conversa quando estás aqui na minha sala e hoje, que é mais um dia que não apareces não fazes outra coisa se não atentares-me o juízo. Parece castigo, se eu acreditasse nessas lérias. Já dei comigo a ver o estirador a afastar-se e tu a fazeres dele cama, só tesão, claro que tu explicarías o facto com a cena das saudades mas eu não vou por aí. Isto passa, quando acenderem os candeeiros na rua já terá passado.
Vens um dia no outro fazes birra e hoje nem um alô. Tanto melhor, escusam-se os silêncios forçados da minha parte perante as verdades forçadas da tua. Fiquei a pensar no teu convite e neste momento já não tem tanto de surpreendente como quando o disseste, ele há coisas que sabemos mas parece que só se objectivam quando as ouvimos por outra boca que não a nossa, aquelas das manhãs na casa de banho ao espelho em que se mastiga um rol de idiotices e sentimos um alivio caustico pelo segredo dos pensamentos. O teu convite é uma dependência e eu não sou capaz de ser assim sabes bem e fico apreensivo por te saber com essa necessidade. Fizeste bem em não aparecer nem telefonar, se calhar nem voltas mais, não ía aguentar uma cena de choro e ranho, já tenho a noite para viver em função do entardecer e eu a cargo delas.
Entras sinuosa, nem um beijo, ainda a porta não está fechada já estás a dizer que assim não dá, assim como apetece-me retorquir, contigo a vir um dia e depois contrariada a achares que a tua ausência é o castigo que mereço, mas guardo para mim a pergunta e espero que me elucides embora suspeite que mais uma vez lá vamos nós caír naquele assunto com aquela palavra. Está a começar a tornar-se repetitivo... O que é que eu quero desta relação, mas tenho de responder sinceramente sublinhas, ora aqui é que está a questão, mais sincero é impossível e parece que é essa mesma sinceridade que está a atrapalhar tudo. Vem viver comigo, deixa isto, há espaço suficiente para os dois e tudo sería diferente, tive de me levantar, acho que este é o melhor gesto para te demonstrar que se queres que faça parte da tua casa, isto como tu lhe chamas e isto é a minha casa, terá sido uma mentira incluíndo tu, nós. Confesso que por esta não esperava. Só pelo momento da surpresa apetece-me beijar-te, abraçar-te e depois beijar-te outra e muitas vezes mas tu viras a cara para o lado e sais, bates com a porta, ouço-te os saltos na escada, na rua até o som de martelinhos desaparecer. Não esperava, mas gostava que hoje tivesses ficado comigo debruçada no parapeito até a noite aparecer.
Ligas, desculpas-te com uma dor de cabeça terrível, terrível e insistes no adjectivo para reforçares a mentira. Não é preciso nada disso, gostei do telefonema dispenso a mentira, estás a ver porque é que eu dispenso conversas a sério? Acaba-se por dizer qualquer coisa que não corresponde à verdade empolgados pelo momento e se falassemos sobre o que queres inevitavelmente dir-me-ías coisas lindas e um bocadinho exageradas pela emoção, até as juras viríam à baila e isso não, juras é que não, alguém tem que ter a cabeça no lugar. Se não queres aparecer não venhas e se achas que falar daquele assunto com a palavra proibida é condição para apareceres então digo-te eu, e agora a sério, isto é mesmo um adeus. A noite acaba por me exigir tanto e tu ainda queres mais.
Não apareceste, amuaste. São estas pequenas coisas que me fazem lembrar a tua idade, achas que me castigas por não aparecer mas a verdade é que isto diverte-me. Este tipo de previsibilidade dá-me gozo, sei de antemão como vais reagir, nem te ocorre que eu já estive aí nessa tua idade e que embora sendo homem há coisas tipicas que temos mesmo de fazer porque são da idade e não têm nada a ver com o facto de se ser homem ou mulher. Quando chegares aqui vais perceber e muito provavelmente se tiveres com alguém de outra geração também te vai dar gozo. Não te vou dizer nada disto, tens que passar por esta fase, é mesmo assim e por outro lado iría parecer que te estava a dar um sermão de pai para filha. Bom... Quase. Amanhã ou depois lá chegas tu, as castanholas dos saltos na escada e mesmo antes de bateres à porta compões o boneco da ofendida, eu faço de conta que não percebo nada e deixo-te vazar o que já trazes ensaiado. Nestas alturas ficas especialmente atraente e de olhar picante, o que dizes muito séria não combina nada com o sinalinho atrevido que tens no queixo. Tu nem sonhas mas consegues mais de mim nestes instantes do que dias a fio de burro amarrado. É como te digo, é a noite depois do entardecer.
Temos que conversar dizes tu, só espero que não seja aquilo, tu sabes o que é aquilo mas não digo nada, só te olho à espera que passe esta sensação de déjà vu e que o alivio me ponha à vontade outra vez. Temos mesmo de conversar... a sério. É aqui que fico mais aflito. Conversar. Não podemos estar como estamos? está tudo tão bem, o sexo é magnifico e até aquele episódio da tua estadia acabou por ser uma experiência de registo, que mais queres, estragar o que é perfeito? Calo-me claro, se te dissesse isto quase aposto que choravas, o rosário das frases convencionadas como não sou só um corpo nem a tua puta de serviço, podemos ainda estar melhor ou no apogeu, que queres de mim, não pensas em nós, seríam a legenda da tarde. Mas o que me preocupa mesmo nem é tanto o temos de conversar, é esse intervalo parado e abissal do a sério depois das reticências. Se trocassemos de posições sería a minha vez de te deixar aflita e encostar-te à parede com um mas nós não somos a sério? Palavra que não sei se isto é uma metamorfose se um suicídio.
Silêncio. Não se ouve nada. Agora que saíste deixaste o silêncio. Mas é um silêncio estranho pois também não consigo ouvir os ruídos da rua, buzinas, os vizinhos a falarem, esses barulhos que me acompanham pela manhã. É certo que a esta hora não costumas estar aqui nem nunca fizeste parte do meu começo de dia, mas tanto silêncio... Parece que levaste tudo, não foi só o corpo, a conversa agitada logo que acordaste, os saltos a precipitarem-se escada abaixo, foi mesmo tudo, uma espécie de cenário que se arranca quando a temporada acabou. Já abri e fechei a janela, voltei a abri-la e a fechar à espera de ver a diferença do som, dos sons. Mas nada. Só tenho nesta sala tu e o silêncio. Tu e o silêncio.Vou esperar pelo entardecer, aquele fundo mesmo antes da noite tingir estas paredes. Aí volta tudo ao normal.
Não sei bem como tapamo-nos com a noite e ficaste cá em casa. Não sei como foi isto acontecer e acho que tu também não, nunca o evitámos mas sabemos bem que isto pode ser o principio de algum fim. Não que me tenha sentido mal, aliás foi uma janela que se abriu, ver-te deitada a ocupar a minha almofada e os meus receios em ressonar e acordar-te ou rolar e esmagar-te sob o meu corpo, és tão diferente quando dormes... Sabes, quase senti que tinha outra mulher na minha cama e que esta era uma maneira torcida de ter um affaire sem saberes. Não te vou dizer isto, claro, então é que era mesmo o fim, logo agora que descubro outra para além de ti. Mas que foi estranho foi. Dobrar o anoitecer com uma mulher jovem e fazer a madrugada com outra da minha idade, especialmente quando são a mesma a usar a escova de dentes pela manhã é coisa que não estava à espera.
Já vinhas com ela fisgada, deves ter desenhado o plano todo antes do ataque para chegares preparada para as surpresas e assim que fechei a porta selaste todos os meus movimentos pela tenaz que me encaixaste no meio das tuas pernas. Primeiro não me apercebi mas à medida que me ías devorando a golpes de anca e insistías na pergunta comecei a estranhar... Na verdade nem sei bem o que é que me perguntaste mas deve ter sido a pergunta do costume, a minha atenção estava em ti, gosto de ver o teu brilho e de te ver corada e depois muito arrepiada. Só quando tapei a tua boca e senti a ponta da lingua na minha palma é que te deves ter satisfeito na resposta que não houve, vieste-te, este é também o momento glorioso e egoísta em que sou só eu e nada mais. Será preciso mais eloquência?
Não quero conversa, não quero barulho, também tenho os meus humores, só quero sentir-te, por fora e por dentro, descobrir outros sinais que ainda não tenha visto ou alguma reacção que me deixe intrigado como um rasto até amanhã ou até um dia esse relampago se volte a electrizar na minha cabeça e me faça sentir tesão só de te lembrar. É isso mesmo, hoje é dia de corpo. Sem roupa na pele e sem roupa na alma. Só espero que não me venhas com aquele assunto, aquela palavra, estragavas tudo, íamos discutir, por isso deixa que te sirva o meu corpo, façamos um festim. Deste tantas vezes se ornamenta a alma, essa, a que despimos. É a noite pois, a noite que se estende macia para nos deitarmos.
Allegro, o compasso dos teus saltos denuncia, é o feriado arrematas à entrada, nada como um dia a menos nos dias da semana, vais desenrolando noções práticas sobre como passar um feriado, faltam mais uns graus e a praia para ganhar uma cor. Mais? Mais o quê, não páras para seguir o meu raciocinio, a verdade é que este rubor é-te desde sempre, já nasceste nele e não o conheces sem ser dia de folga, presunção e esquecimento meus que por vezes acerto os nossos relógios biológicos e acho que nos encontramos a meio caminho. Mas não, essa folga preenchemo-la na horizontal ou doutras vezes na fome a parede ampara costas e pernas. Cantas baixinho a Internacional, pergunto de onde trazes essa música, sabes lá tu, ouviste na rua a caminho daqui e entrou-te na cabeça, essas coisas parvas que acontecem sem se dar conta. Daqui a nada o entardecer há-de fechar a minha janela e esta sala como uma caixa guardará os sons que agora desperdiças na ponta dos lábios.
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