Ela soçobra devagar e os joelhos apoiam-se nos meus ombros, quero mais, quero mar, vicio-me mas ela segura-me pelo pescoço e aperta, os olhos abertos quase perdidos no contraste do azul escuro, empurra-me, não quero, quero comer-te onde agora te comi e digo-te outra vez alto, como-te, aperta-me o pescoço e obriga-me ao chão ganhando a melhor, é ela que me penetra e que me copula, eu alimento da sua fome, ela liquido da minha sede, sinto-a por dentro, voraz, toda azul capaz de me afogar e nem sequer me importo com esta inundação que sinto e me aquece todo, quero dizer que a amo mas impede-me de falar, atravessa-me o pincel nos dentes.
Primeiro estaco-me no movimento mas depois aproveito-lhe o fio de água e diluo a tinta nesse sal natural deslizando o pincel desde o rosto, pelo pescoço, curvando entre os peitos, a direito no ventre e desaparecendo entre o sexo, não sei o que faço ou só agora o sei, tenho fome como nunca tive mas uma fome diferente e única em que me apetece comer mas que receia não conseguir parar por insaciável, por mais fome ficar a sentir. Cai-me o pincel da mão dormente, não sinto corpo em mim, só a boca, ela ajeita-se à minha boca, é gosto de tinta e de mar e depois só de mar, só mar forte a apertar-me com as pernas e esta fome a abocanhar tudo e o coração na boca e o mar na boca e sinto a respiração dela como um cavalo a trotar e gosto, e gosto e amo.
Aprumo o cavalete mas não encontro chão plano para os meus pés e tudo me parece uma tontura na minha sala, talvez deva abrir a janela e espreitar a rua, sentir a calçada e procurar o leito do rio para deitar os olhos e aplacar os nervos, mas vem ela e puxa-me o braço devagarinho e depois com a mão na minha guia-me o pincel de encontro ao corpo nú e repete, repete sempre pinta-me e só então percebo a arte, a cor, todo o azul da noite e das noites que estão para chegar e que desejei e que tive medo. Sinto-lhe a pele arrepiada de Novembro a deslizar sob os pelo do pincel molhado e esta tela viva recebe-me porosa, sequiosa, pedindo sempre mais tinta, mais mão minha, mais empenho, todo eu cor, leve e profundo enquanto ela nasce brilhante e fresca, a respiração tranquila, os olhos fechados, um fio de lágrima a desbotar no azul.
Vem de toalha embrulhada como uma aparição entre o nevoeiro, sinto um arrepio à medida que se aproxima de mim e reparo que uma gota de água perfeita lhe pende na ponta do nariz. Pinta-me, diz-me, e estas palavras fazem tombar a gota perfeita como uma explosão de uma mina arreando paredes e destruindo os meus tectos a precisar de restauro à medida que desenrola a nudez do turco que a cobre. Tremo, sinto frio, não tenho paredes para me tapar, só a humidade do vapor de um banho ou a limpidez com que a vejo. Pinta-me e agarra o pincel manchado de azul na minha direcção, cor de noite, antes que a noite me chegue.
Impressionante como parece que o tempo demora quando estou à espera e a água não pára de correr, que faz lá dentro que a água não pára, deve beber, anda sempre com sede, vou ter uma conta calada e a puta da água que não pára, vou contar até vinte e se não fechar a água vou entrar que se lixe, a casa é minha e a água também, não estou para isto, quem me mandou trazer esta gaja cá para dentro e os tectos afinal precisam de um restauro, têm rachas não admira, centenas de anos, muita água já correu e o rio há-de ter enchido e vazado, fechou a água finalmente, tanto tempo para tomar uma merda de um banho. Abre a porta e o vapor é tanto que mal a vejo. Não sei o que hei-de dizer mas só me lembro do que aprendi na instrução primária e das gravuras do D.Sebastião muito amarelo com uma gola de favos e a voz do professor a dizer que ainda o esperam numa manhã de nevoeiro, eu não te esperava mas tu estás na minha sala e não sou capaz de decifrar que raio de mistério é este.
Agarro o chinelo sobrevivente e entrego-lhe, é um pertence dela, queres tomar um banho, faz-me impressão a sujidade que tem em cima mas suponho que é uma forma de a aquecer, são poucos os trapos que tem em cima, o silêncio que a levanta e os olhos a perguntarem onde é a casa de banho são surpreendentes, nunca conheci uma mulher que não falasse pelos cotovelos até a muda que vendía jogo pelos restaurantes da baixa e que já se finou fazía mais barulho que esta, vou à frente para ensinar o caminho e as toalhas, o sabonete, se quiseres shampoo embora cabelo tenhas tanto quanto eu e espera que eu saia não te dispas já, bato com a porta, não a quero ver nua, é uma miuda é uma miuda apenas uma miuda desgraçada, uma puta digo para mim, mas vou sempre parar à garota e não saio disto e ao chinelo sujo e miserável e sinto-me mal e triste, quem devía tomar o banho era eu, lavar esta tristeza e escorrê-la de mim desde que regressei.
Bebo outro e peço ainda mais um mas é-me vedado esse direito, sou maior e vacinado mas não gozo da faculdade de beber o que quero, o dono corre comigo, vai-te que já estás a ficar entornado, estou é todo molhado da chuvada, anda serve-me outro, rua com o cão e estica-me o braçolho gordo e potente ameaçando enxotar-me com o pano, não sou mosca mas ponho-me a subir a calçada e a dar-lhe razão para dentro, não sei que tenho que já não aguento tanto como dantes, dantes bebía e bebía e ainda bebía e ficava direitinho, agora é isto. Estou cansado e sem respiração, subo os degraus como a vizinha a raspar os pés na madeira e a pousar as palmas das mãos na parede. No capacho está ela. Descalça. Embrulhada a si mesma e tão ensopada quanto eu. Tem os pés limpos mas as unhas estão sujas com um veio negro à volta. Meto a chave à porta e rodo. Pouso-lhe a mão na cabeça. Ela estica a mão e segura o meu pulso. Abro a porta e ela gatinha para dentro.
É ela, é ela digo ao gajo da taberna e ele não liga e palita os dentes, pano ao ombro, só olha sombrio a chuva que cai como se fossem lentes que lhe tirassem a visão do que lhe passa à porta, diz que não vê nada, um dos velhos diz que está no tempo dela e depois todos falam do tempo, não é nada disso seus fósseis é ela descalça será que não a viram? Saio disparado mas o taberneiro desata aos berros por causa da despesa e mando-o para entre pernas e devolve-me para o mesmo sitio. Mimos. É o aconchego de se viver num bairro que nos é querido. Não a vejo, não vejo nada, estou ensopado, o rio subiu a calçada e resolveu verter-se sobre mim deixando o leito seco. Logo mais quando espreitar a anunciada da noite hei-de encontrar uma cova e peixes a tentar desesperados acharem uma vida na lama. Não sei porquê assusto-me e sinto frio. A chuva pinga-me da barba. Nada que um copo não aqueça e por isso retorno ao tasco.
Dou comigo a pegar no esboço da puta vezes sem conta, demasiadas vezes, sinto-lhe prazer nas linhas hesitantes e sem treino, não o quis levar. Da maneira que lhe falei será tudo o que resta dela, nunca mais há-de voltar e no entanto sou capaz de a desenhar de olhos fechados, à medida que os dias e as horas passam há relevos na memória que se evidenciam por demais e o traço apruma-se, é como andar de bicicleta, depois de sabermos por muito tempo que passe é só uma questão de retomar o equilíbrio. Atiro com a folha para cima do trabalho para tapar o que já devía estar terminado e fecho a porta, abalo-me até ao tasco, pergunto ao dono se conhece a puta dos chinelos, nunca viu tal pessoa. Os outros velhotes também não, nem com outras descrições, falo do cabelo muito rente, nada, nada, o taberneiro diz que deve ser uma das minhas bonecadas e todos riem, não acho piada nenhuma porque sei que ela existe mesmo. Apetece-me chateá-lo por vingança, pergunto-lhe pela mulher a dias, palita os dentes e responde que não há nada, os mesmos sons das pedras de dominó batidas nos tampos de mármore das pequenas mesas irritam-me, começa a chover copiosamente e vejo-a a passar descalça em frente da porta da tasca.
Tu deves pensar que eu estou maluco para ir nessa conversa, põe-te ao largo, nem sequer te deste ao trabalho de olhares o que eu fiz e já vens com as garras de fora para me tirares a roupa e o paleio do agora eu, não, é rua, toca a vestir e rua, e podes levar o desenho. Esta gaja põe-me doido. Faz-me ferver. Não fala, veste-se e não fala, veste-se e não olha para mim, não refila por eu correr com ela. Saiu. Vejo-a descer a calçada, uma espécie de mala de trapos à tiracolo. Descalça. Onde terá deixado o outro chinelo, só vinha com um, pois deixou-o aqui, um cemitério de um chinelo só, vai descalça e vai segura isto não é um poema, parece que sim, lembra-me qualquer coisa mas não sei de quem, uma puta a descer uma calçada descalça vai segura mas não fala e não olha e não refila e também não bateu com a porta, que rapariga é esta que é puta e é drogada e que me quer pintar. Sinto-me mal. Sinto-me a ferver. Sinto-me a sentir. Espero que a noite me dê uma pancada na cara e me atordoe para me libertar disto tudo.
Agarro no bloco e no lápis e fico parado. Há quanto tempo é que eu não faço isto, acho que desde os tempos do curso, acho que já nem sei desenhar à vista sinceramente, ainda por cima um modelo vivo, se fosse uma abóbora ou uma jarra ou os florões do tecto era diferente agora uma gaja, quer dizer esta miúda assim, aqui à minha frente, toda descascada não sei. Ela está à espera, sei que está à espera, bom alguma coisa há-de saír. Já está, não, não está e fica quieta e se calhar é melhor saíres da janela senão tenho a vizinhança toda aí a bater-me à porta, só digo isto para empatar porque na verdade estou-me a borrifar para o que possam dizer. Pronto. Mostra. Não diz nada. Tem as mãos sujas. Mas não diz nada. Mas que merda, podía dizer alguma coisa, se está bem se está mal, mas nada. Agora eu. Que é que tu queres dizer com isso? Agora é a minha vez de te pintar.
Pinta-me diz ela e volta a despir-se sem me dar tempo de dizer não ou dizer está bem ou arranjar uma pose que é o que os pintores dizem às suas musas. Eu não a quero pintar porque não a quero despida na minha sala porque ela está suja e nunca será a minha musa. Nunca tive musas e nem acredito em tal parvoíce, musas são coisa de inclinação de pintor durante um tempo, uma paranóia que um gajo tem durante um período e depois passa, tusa, isso, são tusas e não musas. Eu não tenho tusa por esta miúda quero é vê-la daqui para fora. Ela põe-se em contra-luz na janela, os braços ligeiramente afastados do tronco, a cabeça quase de perfil. Só agora reparo no corte de cabelo tão cerrado que lhe delimita perfeitamente a linha do crâneo. Pinta-me diz ela. Está bem.
Ouço-a a arrastar a gordura até à minha porta, a respiração ofegante, quase sinto o cabelo colado na porta, o ouvido a tentar descortinar se estou cá dentro, estou cá dentro estou mas não estou para ti, revolta-me não ser dono do meu espaço, do meu capacho, da madeira da minha porta, do meu patamar, do ar à volta, isto é meu, xô vizinha não estou andor, querías saber o que faço cá dentro não era, mosquinha gorda. E a puta de olhos abertos, boca aberta, pé descalço no meio da minha sala e debaixo dos meus belissimos tectos, isto é inacreditável!!! Silêncio, bateu com a porta, foi-se, agora nós. Não te dispas por favor, vai-te embora, não quero nada contigo rapariga, vai-te embora e nunca mais voltes nem para água estás a ouvir. Agora veste-se mas não diz nada. Não fala. Bebe lá a água e pira-te tenho de trabalhar e não venhas cá mais. É a sério que falo. Não mexas no meu trabalho tens as mãos sujas.
Batem-me à porta, deve ser a vizinha ouvi-lhe o som monocórdico com uma outra, uma ladaínha que faz parte dos sons da rua, não ligo pode ser que se vá, estou a trabalhar, de novo, não estou, deve querer conversa para depois ter conversa com a outra para dizer que sabe tudo, mas insiste, que merda não me largam, abro a porta num rompante. Que é que tu queres, já não te disse para não vires aqui, água, mas que água isto não é o da joana, o que é que tu queres daqui, vai para casa, tem vergonha nessa cara e vai para casa. A puta dos chinelos. Sem um chinelo, a pé coxinho. Tem os pés encardidos. Sinto os passos pesados e arrastados da vizinha a começaram a subir os degraus. Parece que esfrega as solas na madeira por cada vez que poisa o sapato. Vai ser bonito. Vai haver conversa até aos Reis e não vai despegar daqui até se enfiar cá em casa. Estás a ver o que é que me arranjaste, entra depressa e nem um ai.
Desço a rua e subo a rua, vou de casa para o tasco e deste para o estirador, o trabalho corre limpo e como o quero porque faço o que gosto. Repetição de gestos. Imitação da vida. Do mais, não paro em casa a não ser para dormir, cheira a azedo, sobras do que comi e me caiu mal, o que o meu corpo rejeitou não foram os copos do esquecimento da taberna, foi uma ruiva mal digerida que comi na gula da pele, só os olhos a pensarem. Restos estragados vai-se a ver, até parece mal um trabalho bonito numa casa suja. É sempre assim, o que se espreme do que foi é quase nada, um sobe e desce que não leva a caminho nenhum ou um cheiro que ninguém deseja a lembrar a última vez.
O trabalho. O lixo. O telefonema. É tudo o mesmo. Tudo se resume ao mesmo conceito porque aquilo que eu não queria e que prevía veio a acontecer. O chato do patrão a telefonar para saber dos prazos que é a única coisa que lhe interessa e a mim interessa-me descobrir uma casa onde se consiga adquirir o material que uso e uma mulher que venha cá a casa para limpar esta pocilga e sobretudo que parem com a porra dos telefonemas. O trabalho nunca foi o projecto porque nunca gostei dele. Arruinado pela malinha da pseudo-ruiva na raiva da sua saída levou-me muitas horas dobrado sobre o estirador mas paixão nenhuma. Afinal tudo tem uma razão de acontecer, o alivio da saída dela com a libertação do trabalho com o qual nunca tive nenhuma ligação. E a descoberta dos tectos, tudo tão próximo, tudo tão distante, tudo relativo. Despacho o patrão e digo-lhe que estará pronto dentro dos prazos, não minto, tão certo como a noite sucede ao dia, vejo o meu projecto concluído como um espelho do que me resguarda a cabeça.
O mal dos reencontros é que se desfaz muito do que se fabricou na imaginação, na minha imaginação a ruiva continuava morena e tudo prosseguía no ponto onde tinhamos ficado. Não exactamente onde tinhamos parado, porque nessa altura já ela tinha desaparecido sabe-se lá para onde porque eu não lhe dizía o que ela quería ouvir, mas devería voltar agora sequiosa e madura e sem se importar com palavras que não acrescentam nada à convivência. Afinal regressa mais exigente, mais dominadora, manipuladora e de cabeça encarnada. Só lhe deixava aquele fogo com que me entrava em casa e me amarinhava sem dar tempo a largar o estirador, encostar a janela sem se ralar com a vizinha, vinha com ela fisgada, não passavamos da ombreira da porta, bons tempos. Antes tivessemos permanecido na vontade de nos reencontrarmos sem acontecer, agora a recordação que tenho é uma bebedeira monumental. Estou bem sózinho, muito bem. A noite consolida o que o dia quebrou como uma cola imperceptível e um pouco antes dela entrar pela minha casa para reparar tudo o que me lembro hei-de apanhar os bocados que espalhei de mim antes da morena ter desaparecido da minha vida.
Aproximo o sebastião à boca e a sensação que tenho é que estou a beber de um esgoto, não aguento e vou vomitar outra vez, o taberneiro fulmina-me e berra até ao fundo esticando-me a chávena de café. Não consigo respirar. Se o fizer o balcão apara-me a miséria humana, ele ordena-me respira, respira e parece uma mulher prenhe em trabalho de parto, os braços redondos e as mãos sapudas e vermelhas a agitarem-se no ar, se não me sentisse tão mal ría, a culpa desta merda toda é daquela gaja de cabelo vermelho, por alguma razão se diz que não se deve confiar nas ruivas, porquê não sei mas sei que já ouvi ou já li isto em qualquer lugar, onde não me lembro, ainda por cima uma falsa ruiva o que é muito mais perigoso que uma loura a fingir, mas porque raio estou eu a pensar nestas porcarias todas agora se estou tão mal disposto? Olha... Afinal, já não me sinto tão mal, aliás até já estou bastante melhor, que coisa! Que é que eu bebi? Fernet branca. Branca? Aquilo era esverdinhado, acastanhado, lodoso, tens de me arranjar uma garrafa daquilo, é remédio, não é para andar a beber a torto e a direito e agora desampara o balcão que estás a espantar a freguesia e leva os óculos. Para ver a noite não preciso deles. Tenho-a por dentro.
Abalo-me rua abaixo direitinho à taberna, se há sitio que me possa valer é aqui, se há gajo que sabe onde posso arranjar uma mulher que vá limpar a minha casa é aqui. Mas o homem está mal disposto, parece que não me portei muito bem, uma série de acusações que não me apetece ouvir porque estou de ressaca e a pior coisa que se pode fazer a um homem mamado é atirar-lhe com estas merdas à cara. Fala, fala e vai agitando o pano de quadrados que prende à cinta, que desprende, que prende. Dou meia-volta, não me apetece. Ultimamente é isto. Toda a gente se acha no direito de me dar lições de moral a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Começo a subir a calçada e ouço chamar por mim, é ele, vem atrás de mim. Traz os meus óculos de ver ao perto na mão. Regresso com ele para o escuro do tasco, a luz do dia faz-me confusão. Peço um café, uma água com gás, uma pistola. Fica a olhar para mim com o pano no ar. Nem me dou ao trabalho de explicar, sinto que tería de voltar a subir a rua rapidamente e agora não me apetece, não tenho força nas pernas. Falo-lhe da minha necessidade de encontrar uma mulher a dias, diz que vai ver e dá-me um sebastião com um liquido esverdinhado mal-cheiroso. Aponta e ordena que beba. Estou perdido, não tenho nada a perder. Antes que a noite chegue muito há-de chegar e eu daqui não saio.
Não há salvação para quem não quer ser salvo e eu não quero. Abalei-me para o tasco e perdi a noção do tempo, dos copos e da figura que devo ter feito porque hoje a vizinha estava sentada aos pés da minha cama a fazer crochet e a velar pelo meu sossego, como me disse depois quando me trouxe uma canja para sossegar o estomago de tanto demónio. Não sei como entrou, como eu entrei, o que se passou, desta vez deve ter sido de caixão à cova, nas palavras da vizinha foi uma grande carroça vizinho, deve ter sido, mas não o suficiente para a levar daqui para fora, já me chegam de gajas cá por casa. Comi a sopa, enxotei delicadamente a vizinha e fui ver o que resta do meu trabalho. Nada, um monte de papel seco e duro, muito colorido bom para forrar o contentor do lixo da câmara municipal.
Mas não chegou a tanto porque o quente da canja misturada com o pé do barril deu-me uma volta e vomitei-me todo para cima desta obra de arte. É nestas alturas que me lembro da minha mãe, a mão da minha mãe na minha testa. Mordo a lingua. Há uma mulher que faz falta na minha vida.
Finalmente. Sózinho finalmente. Eu e o silêncio. Conseguir ouvir-me. Porque será que as mulheres são tão ruidosas, mesmo caladas são sempre ruidosas, há sempre qualquer coisa nelas que faz um barulhinho qualquer, até mesmo os silêncios nelas têm qualquer coisa que manifesta um som. Eu berrei. Tive de berrar ou ela não parava e não saía. Claro que tinha de chorar. Foda-se. Foi-se embora e levou a malinha dela e entornou-me as tintas por cima do trabalho de dois meses. Não bastava ter-me lixado o dia e a cabeça também tinha de rebentar-me com o projecto. E os tectos. Como estarão os tectos? É isto. Chegou como um furacão, instalou-se, lambeu o que quis e depois de tudo devastado foi-se. Nada sobra. Fica-me uma janela para a noite. Se esta hoje se lembrar de chegar.
Começa a tornar-se insuportável esse tom. Já nem sequer percebo o que dizes, não quero saber, mas incomoda-me o tom da tua voz, temo que caiam os florões, a caliça, o estuque, trabalhos de valor e que perduraram pelos séculos para tu agora aqui chegares e dares cabo disto em três tempos. Não quero ver isto em fanicos, vê lá se te pões a andar daqui, está a começar a faltar-me o ar e a pachorra, porra, que merda de arrependimento que sinto por te ter tocado! Ainda por cima não foi nada de especial, nem recordo como eras, como éramos quando nos comíamos, porque tenho a certeza que nos comíamos é essa lembrança que me vem à memória e agora a porra dos tectos a ruírem não tarda nada, rua! Rua! Rua!!!
Começam as recriminações, que eu não paro de olhar para o ar e não ligo ao que estás a dizer e que é importante e que deixaste de ser importante na minha vida. Não sei se te responda pela mesma ordem mas até é verdade e é uma descoberta bem recente. Se não tivesse ficado deitado de costas depois de darmos a queca não me teria apercebido da beleza e da riqueza dos tectos que tenho na minha própria casa. A verdade é que a tua conversa está a aborrecer-me porque é a continuação do que já conheço, apenas não me lembrava. E também é verdade que descobri que não és importante na minha vida. Só te achei importante quando não te tive. Hoje e agora estafaste uma cova num plano liso, passa-se bem, quiseste há alguns anos pores a falar-me como um boneco de um ventríloquo e queres tentar o truque de novo. Não vou dizer a palavra, não acredito nessa estúpida palavra. Na verdade, não te vou responder, vou esperar que acabes o banho, te vistas e pedir que não voltes. É mais higiénico.
A trabalheira que estes gajos tinham para fazer os tectos! De facto naquele tempo havía tempo que sobrava para fazer tudo e até para isto, e passado estes séculos eu estar aqui a pasmar de adoração a olhar para esta perfeição. E não havía cá nada de máquinas ou coisa em série, era tudo à unha, quanto muito um artesão a fazer um molde e depois o gesso, a flor de liz, uma perfeição, já não se fazem coisas destas. Já nada se faz perfeito, nada. Tudo é imperfeito e há um gosto pelo imperfeito. Aos anos que aqui vivo e no final de dar uma acontece-me ficar aqui a olhar para o tecto e aperceber-me desta beleza mesmo por cima da minha cabeça... Ele há coisas! Perguntas-me em que é que penso. Em nada. É melhor vestires-te e ires embora. Tenho de trabalhar e estou atrasado. E não telefones, sabes como abomino telefones, depois logo se verá como nos encontramos. Queres falar, dizes, agora é que queres falar, mas não te vestes e não vejo porque não possas fazer as duas coisas em simultâneo e vais de caminho para a minha casa de banho e eu atrás, sem entender onde arranjaste esse á-vontade para te movimentares pela minha casa. Lava-te. Eu fico aqui a olhar para o tecto.
Que mania que as mulheres têm de falar de coisas que já passaram. Não dá para perceber. Se pintas o cabelo de encarnado porque eras morena ou loura porque razão teimas em repisar assuntos que estão fora de moda? Digo-te que aquilo que fomos já não somos e aquilo que és agora é o que temos, nada mais, sabemos lá nós como nos damos agora passado todo este tempo, conta-me de ti, o que fazes, como vai a tua vida mas tu mudas a agulha e pedes-me que fale das minhas aventuras, que disparate esse pois se a minha vida é do mais pacato que se possa imaginar e tu não estás de meias medidas e dizes-me que vais mudar isso, isso o quê pergunto eu, essa vida de freira respondes e desabotoas a blusa a olhar-me desconcertadamente, depois tiras os seios para fora do soutien e ficamos os dois neste silêncio absurdo pois na verdade, somos dois estranhos. O que é que se passa nessa tua linda cabecinha ruiva para tentares forçar o que não pode acontecer hoje, agora, já, pois saltamos vários anos da nossa vida e as coisas não funcionam assim. Vou até ti para te compôr mas agarras-me e começas a respirar de uma maneira ofegante o que me parece excessivo. Gostava de ter os meus óculos de ver ao perto aqui à mão para me aperceber do relevo da tua pele ao pormenor. Tocas-me, mordiscas-me e aos poucos fazes-me esquecer o que é conveniente e o que é demais, estamos os dois no sofá, no chão, ergo os olhos e vejo a minha janela toda aberta.
Magia. Uma simples frase e tudo volta a ser como era dantes. És mesmo tu sem sombra de dúvida com cabelo de outra cor e alguns atrasos na performance mas cá estamos nós no ponto onde parámos. Uma tecla premida no comando para tomar fôlego por alguns anos e lá vamos nós ao mesmo. Acontece que eu não pintei o cabelo, aliás perdi foi cabelo e muita da pachorra que tinha para te aturar as birras, por isso se pensas que vens para tirar satisfações dá meia-volta ao cavalo e vai por onde vieste. Perguntas de novo se nada tenho para te contar, por onde andei estes anos e agora vou responder-te silabicamente que já recuperei o som na voz mas vens para mim de braços esticados, apertas-me contra ti tão fortemente, agarras-me o pescoço com a mão, tens a mão gelada que me fazes arrepiar todo. Não digo nada, abraço-te. Depois num rompante afastas-te, olhas-me a chorar e eu já não percebo nada, é para sorrir ou não, voltas a abraçar-me e dizes-me coisas ao ouvido que não percebo, devo estar a perder a audição também a par com a vista, estou velho. Nem tanto, sinto um calor progressivo que me toma entre os joelhos e quero afastar-te docemente para que não te apercebas, é que não estou totalmente à vontade, peço que te sentes mas insistes nestes segredos indecifráveis até que te levo ao sofá e te desenrosco do meu pescoço. Protejo a frente das minhas calças com as mãos e sento-me no banco do estirador, vamos com calma, isto é tudo demasiado para mim, chegas ruiva e silenciosa, depois a pergunta, logo a seguir estes apertos, calma. Dizes-me que tens saudades de mim, daquele tempo, se podemos ser nós outra vez.
Por cada toque na porta o coração quase me salta. Aguento-me. Tudo me vem à boca em golfadas e a veia do pescoço dói-me por ser tão doida nestes segundos em que me prendo ao parapeito da janela para não arrancar a porta e ver-te já. Preciso de esperar e mentir-te, fazer-te esperar enquanto os segundos, dois, três, quatro, cinco, já terão passado o bastante para não demonstrar a ansiedade que sinto. Ando até à porta e calco com força o chão para que me ouças vivo e longe da porta sem estar à tua espera. É agora. Abro e és tu. Não és tu. Fico a olhar-te e embora saiba que és tu confesso que não estava preparado para isto. Perguntas se não te deixo entrar e eu estou tão surpreendido que até perdi a voz. Pousas uma pequenina mala vermelha em cima do meu trabalho no estirador e aproximas-te da janela. Abres os braços ao longo do parapeito. O teu cabelo à contra-luz é uma chama incendiada. Lembro-me de ti morena e loura mas ruiva nunca te tinha visto e palavra que és uma nova mulher. Estou impressionado pelo teu silêncio sobretudo, meia-dúzia de palavras para entrar e esta encenação que me deixa intrigado e atiçado. Não és tu. A veia voltou ao sitio e neste momento tenho a certeza que o meu coração já deixou de bater, não o sinto no peito, tenho a boca seca e não consigo articular uma palavra. Viras-te, traças os braços e perguntas se não tenho nada para te dizer.
É cedo e é Domingo e eu já estou levantado porque tenho o trabalho que já devía ter sido entregue para acabar a ganhar pó em cima do estirador e a servir de base aos copos que vou substituíndo por outros cheios à medida que lhes vejo o fundo circular. Gosto de ouvir os passos na calçada que descem à medida do seu desaparecimento e lembro-me que na minha ausência recordava-os igualmente nas manhãs de silêncio enquanto a mulher ao meu lado dormía desconhecendo o ruído que eu trazía para o quarto para não me sentir tão só. Deve ser esse o meu problema. Nunca me sentir acompanhado com mulher alguma mas sentir mais a sua presença quando estou longe delas. Hoje sinto aquela mulher de pele negra e brilhante sentada no meu sofá a observar-me as costas enquanto trabalho dobrado no estirador. A linha das pernas dobradas a par e enviuzadas sobre a direita empinando os ombros e os seios grandes de mamilos escurissimos. Sei-a nua. Já me virei para a ver diversas vezes, já me levantei e apalpei o estofo à procura do quente de quem se levantou à pouco. Talvez tenha descido a calçada e a veja da minha janela. É dia azul e claro, tanta luz. Ouço saltos na escada de madeira, quem será a esta hora, batem na minha porta, batem no meu peito. Hoje sei quem é.
Sou uma besta. Não devia ter tratado a miuda daquela maneira, agora estou aqui roído de remorsos por lhe ter atirado com a porta na cara e lhe ter negado mais água, que bebesse o Tejo se tinha sede e se ela levou aquilo a peito e se atirou, sabe-se lá que merda de vida tem uma gaja daquelas, drogada, completamente drogada, capaz de fazer uma loucura no desespero. Teve uma lata enorme vir aqui bater-me à porta, um desconhecido, eu. Cliente. Bater à porta do cliente a pedir água. Ainda por cima nem me serviu da outra vez. Paguei e não fui servido. Apalpou-me e não comi. Marketing fraudulento. Uma puta de chinelos de meter o dedo. Bem sujos por sinal. Deve ter andado descalça, quem sabe. Se se tivesse enfiado na minha cama sujava-me a roupa. A menos que o fizessemos em pé. De pé. Estou a sentir-me em pé de guerra e vou aproveitar a oportunidade com ambas as mãos. Literalmente. Antes que me caia a noite.
Água. Diz que quer água. Olho-lhe as pupilas, pequeninas como cabeças de alfinete, os dedos dos pés, pequeninos e sujos como amendoins descascados. Ficamos à porta, para este lado não entras, bebe lá a tua água e põe-te a andar, vai curar a tua pedrada para longe e não voltes que isto aqui não é o bebedouro público, porque não foste à taberna, já tinha ido mas correram com ela, e eu com isso? Só me faltava esta, eu à espera da outra, o coração em cima da lingua pronto a cuspir tudo e aparece-me esta fuínha, no que é que eu me fui meter naquela noite em que tudo estava pardo como o raio da zurrapa que bebi, agora não me larga, é andor, não venhas cá mais, estás a ouvir? Quer mais água, está seca, não há mais água, se tens sede atira-te ao rio, fecho a porta como um tiro e odeio-me. Porque merda havía de ser esta a aparecer em vez da outra se eu já estava preparado para vê-la ao fim de tanto tempo. Agora já não estou, que não venha mais. Que nada venha mais, deixem-me em paz ou desapareço.
Os nós dos dedos muito leves na madeira da porta. Fico sobressaltado, serás tu, não te ouvi os passos, ainda me recordo dos teus saltos como castanholas que adivinhavam o teu humor e me consentíam estar preparado para o que aí vinha. Agora não sei, apanhas-me de surpresa, os anos passaram e sinto-me como um rato que farejou o odor do queijo e desprevenido se deixou entalar na ratoeira. De novo o toque na porta quase como um raspar a pedir para entrar com muito cuidado. E se eu fizer de conta que não estou, sustenho a respiração, engulo em seco, tenho a certeza que ouviste eu a engolir em seco e que até consegues ouvir as pancadas que o meu coração dá contra os ossos do tórax, isto é tão estúpido, um homem como eu a fingir dentro da sua própria casa que não está em casa. Levanto-me devagar do banco alto do estirador e como um gato caminho até à porta. O sobrado estala e trai-me, as casas velhas são as pessoas que nelas moram, não posso evitar abrir a porta e ver-te. Escancaro a porta. É a prostituta dos chinelos.
Ainda mal tinha rodado a chave na porta já estava a vizinha a perguntar se era eu. Quem havía de ser, só se fosse alguém a assaltar-me, mas não lhe disse, quería dar-me um recado sobre a minha noiva que tinha cá vindo e que até tinha ficado muito contente passado tanto tempo ainda estarmos juntos, coitadinha, isso é que ela tinha chorado que nem uma madalena quando o vizinho estava para fora. Fico sempre aturdido com a conversa desta mulher. As informações desenrolam-se a um nível e velocidades que sou incapaz de acompanhar. Tive que pedir que repetisse e por partes. Que noiva, que choradeira? A minha, a dela claro. Fartou-se de chorar quando cá veio e eu não estava. Claro que não estava, pois se estive vários anos fora e se não tenho noiva, só pode ter chorado e a seguir quem chora sou eu porque estou a ficar doido com este recado! Decido fingir que percebi para me ver livre da vizinha e meter-me em casa. Abro a janela. O dia está alto. Tudo se junta como pedaços espalhados. Hoje vai demorar muito até a noite descer sobre mim.
Decido-me a desfazer as malas. Tento encontrar-lhes o cheiro da minha casa mas a minha casa é esta onde agora moro, onde sempre morei a maior parte da minha vida. As ausências sempre foram fugas achadas para escapar ao que me incomodava em casa e naquele tempo, a maior perturbação era eu. Fugir de mim ou fugir de casa é um conceito velho. Fugir das palavras que ela quería que eu lhe dissesse, fugir das palavras que acabei por dizer para mim, já sózinho. Ainda bem que não lhas disse, tería sido um tremendo erro, afinal estava tudo certo. Nestas malas não há nada senão roupa, nem podería haver. Fugir para me prender tería sido uma condenação pior do que dizer palavras que não podem ser ditas. Assim está tudo bem, como deve ser, arrumam-se as coisas, nunca mais precisarei destas malas outra vez.
Não sei que mulher é essa que ligou para a taberna. Não deixou nome. Perguntou por mim, quería falar comigo e não deixou nome. Não sei quem terá andado a ligar cá para casa e a desligar quando atendía. Não sei como fui esquecer-me dos óculos na taberna, se nada vejo ao perto sem eles. Não sei porque o material que uso está em ruptura e também não sei porque razão não me apetece trabalhar. Sinto-me desencaixado. Sinto-me apertado dentro da minha casa. Abro a janela ao final da tarde e vejo o dia a morrer e sem saber porquê, sinto um bocado de mim a ir-se com ele por cada vez que esse gesto de atirar os olhos além me condena. E me acalma e pacifica. A noite chega.
Batem-me à porta. Deve ser cedo. Não consigo ver as horas porque definitivamente perdi os óculos. Não consigo achar as calças, embrulho-me ao lençol e pergunto de dentro quem é. É da taberna. Um recado. Não percebo. O patrão falou comigo há pouco tempo, o que é que será agora, mais prazos, que chato de merda esse gajo, não sabe que tenho o meu tempo e a porra do material que uso não aparece, que inferno. Do outro lado da porta falam e eu não percebo nada. Abro uma nesga. Fala de uma mulher que ligou. Não percebo, continuo sem perceber. Peço que ele entre. Ele entra e dá-me os óculos. Agora tudo faz sentido. Sinto-me vestido. Claro. Uma mulher que ligou, não tem nada a ver com o patrão, onde é que eu fui buscar essa do patrão, ele tem o meu número de telemóvel. Uma mulher que ligou cedo. Que horas são isto, são horas de almoço, responde o da taberna. O problema é a falta de visão. Deixa-se de ter o alcance sobre as perspectivas.
Atendo, desligam, toca, atendo, desligam, toca, não atendo, não se cala, arranco o fio da parede, pára o som irritante de insecto histérico. Agora o telemóvel. Atendo, não consigo ver quem é porque não encontro os óculos. É o patrão. Sim. Sim. Sim, pode ser, também. Adeus. Não gosto de telefones. Sinto-me um idiota a falar com telefones, nunca gostei de telefones. Não se fala para a pessoa, fala-se para um pedaço de plástico. Evito, sou antigo, gosto de olhar as bocas, os dentes, as linguas, ouvir com todos os sentidos. Só em último caso é que uso o telefone. Metade do que o patrão disse ignoro, sinceramente. Estive a pensar onde estarão os óculos. E quem terá estado a divertir-se a ligar para o outro telefone porque ninguém sabe do meu regresso. Se apanho o cretino, vai ver. Não me entendo porque me irritei tanto. Pasmo, estou pasmo comigo mesmo, desconheço-me.
Por mais que me atirasse sobre o plano este nunca deixou de estar como sempre esteve, mentira, ficou com alguns circulos do fundo do copo, uma bonita cor aguarelada impossível de reproduzir à força de pincel. Belas marcas, belo tinto, boas memórias. Quase sinto um alívio de pequena alegria. Ou um cansaço sobre o pescoço pela falta de sentir a respirarem por cima de mim, os cabelos a fazerem-me comichão sobre a nuca nas tardes de electricidade vermelha que antecedíam um calor peganhento e num segundo rebentavam os tímpanos na água a direito. Era nessas tardes que eu melhor mentía, tão fácil dizer que havía de voltar se nem a mim eu conseguía ouvir. Depois tudo passava. Até o medo. O das perguntas. Porque havía sol claro e África era só um continente, não era a mulher que se deitava comigo antes do anoitecer.
Ao subirmos a escada apercebo-me que não há qualquer ruído a calcar os degraus o que me deixa uma sensação estranha pois o minimo que esperava era um som picado, uns saltos finos na madeira moida pelo tempo, mas nada. Só quando abro a porta de casa e a convido a entrar à frente e a miro nas costas é que me apercebo que vem de chinelos. Chinelos de borracha, devo estar grosso de certeza, paguei por uma prostituta de chinelos de enfiar o dedo, ao que eu cheguei ou então ao que ela chegou, devo ser o último do dia, vai-me despachar num ápice, lavar-se e vai a correr para o chulo entregar-lhe o guito e eu que me lixe. Já não bastava eu ter de pagar, dantes eram elas que me davam borlas agora isto. Senta-se, levanta-se, mexe nas coisas, toca-me nas partes, está visto que quer aviar-me num instante. Peço-lhe que saia, já lhe paguei, ninguém fica a perder, pede-me água, dou-lhe água. Vejo-a beber até deitar água pelos olhos, é uma criança, que idade tens tu mas ela desaparece mais rápido que a noite quando chega.
Trabalho é coisa que não falta mas o material parece ter-se escoado assim como as casas da especialidade. Já bati quase todas onde costumava abastecer-me e delas só resta o número de policia. Pior que isso é que nunca ninguém ouviu falar que alguma vez tenham sido de outra coisa do que aquilo que agora são. Pergunto-me se terei voltado para o mesmo sitio, já que até a minha casa não me parece tão minha e a cama evita-me tanto quanto eu a ela. Vou alternando o sofá, o estirador e a janela enquanto os entermeios da memória me punem com clarões de luz que me cegam em que uma mulher loura, uma mulher negra e um esboço de mulher se sentam a meu lado no mais completo silêncio. É ensurdecedor ouvir-me.
Não consigo dormir e não consigo sonhar. Desabituei-me da condução pela direita e tudo o que um homem deve fazer às direitas eu pareço ter perdido num mato esquecido que muito procuro e só acho cimento e arames. Encostei o carro. Vou até à taberna onde os outros ainda me conhecem e me chamam o nome. De resto nada parece saber de mim e eu não me incomodo. Nem sequer desfiz as malas embora saiba que não há retorno e tento convencer-me de que devería sentir tristeza por tal mas não sinto, não sinto nada, sinto-me anestesiado e pronto para ser cortado e depois cosido e depois com uma palmada no ombro pronto a andar. Só não sei para onde. Talvez para dentro de casa e desta para a taberna, rua acima, rua abaixo. Até que a noite se lembre de me visitar e acordar em mim o sonho que parece ter adormecido com uma anestesia tão profunda que entrou em coma.
Não é pó o que cobre os anos do esquecimento, são terras vermelhas que se acamam à medida do que se vai pedindo em troca do menos bom. Nunca achei esta casa tão pequena como hoje e no entanto nem ela mirrou e nem eu cresci, muito pelo contrário, os anos encontram-nos na posição inversa. Habituei-me a vistas largas e sem esquadrias, para que servem janelas se os olhos rodam ao largo e tudo o que se pode alcançar ao mesmo tempo é apenas aquilo que o corpo permite ver, de que me servem estes vidros tão sujos se os meus olhos trazem colados o horizonte vermelho? Talvez o melhor seja deixar-me de retóricas, lançar o pó ao barco que me trouxe e afundá-lo antes que seja dia.
Marco o número e interrompo a meio para me punir, devo estar parvo, o que é que eu estou a fazer, reinicio a marcação, monólogo critico, mordaz, destrutivo, terceira vez e vou até ao fim, toca, desilusão, mensagem, não digo nada, um estranho a encher uma gravação, o mais certo foi ter deixado o telemóvel num sofá perdido em cantos de aconchego novo em que as palavras que exige ouvir não são pedidas e saiem por assim ser normal entre duas pessoas, normal menos para mim, ainda bem que não falei, evito o embaraço, acerco-me da noite que me enche a sala em directo, batem-me na cara os sons e sinto-me acompanhado.
Ando assim, sem saber se quero ou não, a apetecer-me e a nada fazer para matar a fome deste apetite estranho de coisas do passado. Já pensei em ligar-lhe a dizer que voltei, já me chamei estúpido enquanto atiro o telemóvel para o canto do sofá, já dei em sentir saudades da pele que se arrepiava sob a minha mão e já suspirei de alivio por não ter de voltar a ser submetido àqueles interrogatórios sem fim que terminavam invariavelmente em pedidos de frases batidas. Vem a noite daqui a pouco e nem mesmo assim me aquieto, realça-me o que mais temo e exige-me o que mais guardo.
O querer intermitente é como os olhos abertos e os olhos fechados, quero ter tudo como era antes de partir e não posso voltar a ser o que era porque tantas noites já esperei e outras tantas surgiram para meu sossego. Fica assim concluído que nem sempre tudo obedece à cabeça de um homem, não tinha grande vontade de ir à tasca e dei comigo a fazer os passos que me levavam até ao balcão gorduroso onde alegremente encosto a barriga e demoro propositadamente para me recordar aquela voz de uma mulher que me esperava em minha casa e me esperava com palavras que recuso na minha boca. Mas o exemplo deste caminho é também o exemplo da mudança, direi do querer às vezes, uma intermitência que me justifica a saudade, umas vezes tenho-a outras abomino-a.
Abro os olhos, fecho os olhos, abro os olhos, esta é a minha casa e no entanto tudo parece diferente, estranho, uma hostilidade no pensamento, isto já foi meu e agora é meu nunca deixou de ser a casa, a noite igual no manto que me lembra a barba crescida das horas em que a espero. Acordar aqui de novo e arranjar ninho para as saudades de onde vim e para as saudades que tive deste sitio enquanto estive fora dele. Está tudo nos seus lugares, há pó de meses, tenho para mim que é pó da noite. Estou em casa.
Se aparecesses agora comia-te. É assim que estou, animal faminto. Depois mandava-te embora, não querería ouvir mais palavras a pedirem aquela palavra nem perguntas sobre nós nem sobre o futuro. Isto não é bonito de se sentir mas é assim que me sinto, a tesão apoderou-se do meu cérebro e eu deixo. Podía descer a rua e encontrar-me com uma profissional, sei onde estão, já paguei uns cafés e uns galões a umas quantas, são vizinhas afinal, de quando em vez falam-me da vida, não da vida de putas mas das vidas normais de quem tem contas para pagar ou do filme que foram ver, gostam de filmes de amor com finais felizes, encrespo-me. Se aparecesses agora não te comia, ficaria com fome e com pena de ter fome e não comer, sei que quererías um final feliz.
Tive um sonho erótico, acordei dorido e indisposto, uma tesão por uma mulher que não faço a minima quem seja e enquanto o coito decorría debitava números de telefone. Paranóias. Nunca gostei de telefones e agora ainda menos. Estou confinado a resolver os meus problemas de sexualidade à mão, sinto-me um adolescente em florescência mas a cabeça obriga-me a refinar as minhas fantasias com calma, com imagens que se iniciam na sedução e progridem para preliminares requintados para culminarem na avalanche da ejaculação entre frases e ordens supostamente trocadas entre mim e eu. Ao menos a noite deixa-me a transgressão dos solilóquios.
Não me apetece, não vou atender, por um tempo vou precisar do tempo todo para mim, afinal que tempo é que eu podería partilhar com uma mulher que conheci outrora e agora me é uma estranha, o que nos une são as memórias de um tempo que se gastou diluído e trazê-lo até hoje sería uma excentricidade, lembrar que não me ligava pevide e eu era o estranho daquele ontem.
Não. Não me apetece forçar-me a lembrar de coisas que não me lembro nem de pessoas que não registo a existência porque agora eu sou outro. E até estes telefonemas de agora passarão a ser enganos em breve, esboços de desenhos que se perderam em anos para trás.
É tema de conversa entre os velhotes da tasca o tempo que passam sem dar a pinocada. Alguns entre dentes, murmuram que têm dias e dias que nem se lembram disso e passado um pouco afinam-se todos pelo mesmo tom. Eu devo ser diferente, lembro-me e sinto a falta, imagino e com a prática chego lá. Mas não é a mesma coisa, são prazeres diferentes, determinações diferentes. Faz-me falta passar dos olhos fechados para o presente à vista, mesmo que nas alturas primordiais me faça a presença fechar os olhos pelo gozo sublime da troca, sentir que dei, satisfaço-me no receber de dar. Não serei então tão velho ou terei então o imaginário tão fresco quanto o do descobridor da noite recém-chegada.
Atendi demasiado depressa, achei que era ela ou a colega de curso, nem vi, era engano, fiquei decepcionado, esperava uma das duas, fiquei surpreendido, já não se devem lembrar. Trabalhar está dificil, é do calor, da janela aberta, dos ruídos da vida a estalarem lá fora, da noite que demora a anunciar-se naqueles traçados inomináveis de cores que chamamos entardecer, lusco-fusco, quase-noite, a noitinha e outras barbaridades que nada têm de concreto. A noite não é concreta, porém de abstracta também não risca. E assim sendo... deve ser uma mulher, está bom de ver.
Num repente parece que me fartei de mulheres, do que elas arrastam, as complicações de que são feitas e o que pedem, pedem sempre mesmo que não abram a boca, exigem, extorquir até ao tutano ao ponto de me fazerem dizer que fiquei farto de mulheres. Desenho-as em fila, encho uma folha de rostos, seios, coxas, ventres, olhos, sexos, nada de boca, nada de dizeres, incompleto-as numa dimensão que não me satisfaz, a verdade é que lhes preciso de ouvir a voz, o ciciar, o risinho fino, dobro a folha ao meio e na amalgama que este poder do lápis me confere sinto a noite a consolar-me num corpo de mulher.
Telefone, não vejo quem é, não atendo, deves ser tu com nova estratégia, que triste não veres que já acabou, insistes, o telefone não pára, encosto-me ao parapeito, espero que apareça alguma vizinha para me dar conversa e abafar o som do telefone. Ninguém. Até os pombos desapareceram, sob o calor o tijolo dos telhados encarniça-se, também a minha paciência, e o telefone que não se cala! Ao longe o rio encandeia-me, cega-me, de repente é noite escura ao meio-dia a pino, o telefone queda-se finalmente, confirmo que eras tu, mas não eras. Não eras tu, não eras tu, que surpresa, era a colega de curso. Talvez lhe deva ligar, arranjar uma desculpa de que estava no duche, ou simplesmente que não ouvi o toque. Mas não ligo, não arranjo desculpas, estou cego até a noite abrir-me os olhos.
Ouvir-te os saltos como castanholas não faz andar o tempo para trás. Muito menos voltar a sentir a tesão que te tinha, por isso vens enganada, achas que deixares-te à entrada com olhar picante e blusa desapertada me leva a começar tudo de novo. Fechas a porta e encostas-te a ela, percebo a mensagem, agora não escapas, não escapo a quê, a nós, frases feitas, deixas cinéfilas, tenho uma coisa para ti muito mais insignificante, uma escova de dentes, estala-te o verniz, mandas-me enfiar a escova de dentes num sitio recondito e avanças para mim de mão em riste. Abro a porta, não és bem vinda. Sais. Mais uma escova de dentes para o lixo, embalada e tudo. De onde é que saiu tanta feiura?
Tenho uma escova de dentes que comprei na mercearia, novinha para te entregar e acabar de uma vez por todas com isto, quantas vezes já disse isto, mas não, tu teimas em querer arrastar este suplicio até se perder a dignidade toda que se teve durante os meses que estivemos juntos, leva a escova de dentes e não me moas, se esta é a tua bagagem agarra nela e vai à tua vida, desempatas a minha e ficamos todos contentes. E ainda ganhas uma escova de dentes a estrear. Sempre tive razão, rifa-se tudo naquela palavra, hás-de levar a tua escova de dentes para casa de outro e hás-de exigir que ele te diga o mesmo que me pedías a mim. Por isto tudo é que a noite é única, irrepetível.
O telefone, o telefone, onde está o telefone, odeio telefones, odeio ser acordado pelo telefone, estou enjoado, dói-me a barriga e a cabeça, e o telefone que não se cala. Surpresa: és tu, pensei que isto tinha ficado arrumado de vez, não tenho estaleca para as coisas que se arrastam e não me apetece mais falar contigo nem saber da tua vida nem remoer sobre coisas que eu não disse, já sei que o vais dizer, até morres se não o disseres, mudas de táctica, pedes a escova de dentes, qual escova de dentes, parece-me tudo sórdido neste despertar, devo estar a ter um pesadelo e misturo tudo, o passado recente e a bebedeira que ainda não se evaporou, insistes na escova de dentes que eu atirei para o lixo, digo-to, gritas, corro para a casa de banho e vomito, sinto-me aliviado, cansado e descansado por ter deitado fora o que me ía nas entranhas da alma. Antes que a noite chegue eu alcanço-a.
Mais um dia por fora, ou por dentro, passei grande parte sentado na tasca a ouvir histórias de putas que morreram de maneira trágica, um velho que assobia baixo e fininho Marceneiro enquanto bate com as pedras de dominó, pintas que assassinam o português e que no fundo criam um novo linguajar, vizinhas que insistem na namorada desaparecida e o grande problema na vida delas é não saberem o porquê. Isto misturado com o cheiro do óleo dos pastéis de bacalhau e das pataniscas, nunca comi melhor do que estes, o tinto que me escorrega e amanhã me há-de fazer azia. Lembro-me de velhos filmes e compito com o Ribeirinho e o Vasco, mas não chego aos calcanhares do Silva que tem resposta para tudo. Acho que estou bebedo mas não me sabe mal. Fora da tasca a noite, está mal disposta, não gosta de me esperar.
Saí porque precisava de comprar material, voltei logo. Quero guardar dentro da minha sala e só comigo, na mão um copo do meu vinho preferido, o sabor da surpresa que tive. Fui à Brasileira tomar um café, imperdoável saír para aquelas bandas e não beber o ambiente daquela casa. Estava ocupadissimo a tomar notas mentais dos que entravam e saíam quando ouvi o meu nome, era mesmo comigo, uma voz desconhecida. Não a reconheci de imediato, agora é loura, quando eramos colegas de curso era morenissima, novissima, boazissima e não me prestava atenção alguma. Nem sabía o que havía de dizer, limitei-me a responder por monossílabos, ela cheia de perguntas. E a rematar um convite, eu disse logo que sim, mas acho que as palavras me saíram por antecipação, nem sequer as pensei, quando dei por mim estava a concordar com uma estranha, eu também devo ser um desconhecido para ela. E agora aqui em casa, com o entardecer a escorrer pelas paredes permito-me lembrar como ela era, como é e tenho vontade de sorrir.
Ainda não me habituei a ter o tempo todo para mim. Não é que não tenha o que fazer mas acostumado a partilhar a atenção com ela agora descontrolo-me um bocado por achar que tenho sempre tempo e no final tenho que acabar por fazer as coisa à pressa. Agora também já posso ir ver as exposições todas mas não me tem apetecido saír de casa. Nem para ir ter com os amigos que durante o tempo em que estive com ela ficaram um pouco para trás. Talvez faça uma viagem, revisite alguma das cidades de que gosto mas só de pensar nos condutores de Domingo que andam por aí nas férias até me arrepio. Melhor ficar por aqui. Eu e a noite. Sempre fomos a melhor companhia um do outro.
Saio da minha colina, desço até ao rio. Talvez faça a noite chegar mais rápido. Talvez me faça parar de falar comigo mesmo e me leve para outras latitudes. Onde a noite não é profana e a minha loucura se dissolve pela madrugada. Mas não será isso o que acontece quando a janela aberta se torna uma mulher que me espera?
A vizinha apanhou-me encostado ao parapeito e metralhou-me de perguntas, tudo sobre o mesmo, a namorada, que é feito da namorada, não há namorada, que pena, fazíam um casal tão bonito mas num instantinho faz a agulha para o corte e costura, que quando a namorada começou a aparecer por aqui até pensavam (quem?) que era minha filha mas ela viu logo que aquilo não era mulher para o vizinho, e o vizinho sou eu e a mulher a namorada que ainda agora era fabulosa rápido me transformou num pedófilo incestuoso para no segundo imediato fazer-me de chulo que está-se mesmo a ver que não passou de uma mulher de má vida à procura de vida certa. Meto-me para dentro, ainda a ouço chamar-me. Atiro-me ao trabalho, desenho a vizinha, um velho, uma criança e uma puta. Só respondo quando a noite me abraça pelas costas.
Acordei com a sensação de ter corrido muito ou ter dormido a correr mas é uma mania, dormi o que sempre durmo. De volta ao estirador encara-me um carvão muito trabalhado na ponta dos dedos, sombras e contraste no fio carregado que deixa vestigios de pó acumulado. Desenhei-a. Não sei porquê, mas reproduzi a cara dela quando se voltava para mim naqueles repentes depois de eu lhe ter dado uma resposta desconcertante, é esse o rosto que guardo, uma traquinas de nariz empinado e com um pedaço do cabelo a caír-lhe sobre o sobrolho, a boca ligeiramente aberta deixando antever os dois dentes da frente a lembrarem-me duas chicletes ao alto. Enquanto estivemos juntos nunca a desenhei e até ignorei os pedidos velados dela para o fazer, não sei, não tinha vontade, achava descabido. Agora deu-me para isto. Foi ontem à noite, a noite é que deu nisto.
Estirador. Estirador. Estirador, já disse. Não consigo concentrar-me. Vejo o que quero desenhar à minha frente mas por uma qualquer razão o que sai não me convence, não me comove, não me apaixona. Parece que os bonecos fugiram para os quadrinhos de outro desenhador qualquer que estará de melhor humor do que eu. Já fechei a janela e já a voltei a abrir, fazem-me falta os sons com que vivo e que preenchem a minha vida, sem eles não são a minha vida, são uma qualquer emprestada. Não sei explicar. Hoje não sei nada nem sai nada. Também nada entra. Assim que a noite chegar vendo-me a ela, pode ser que a minha vida tenha algum préstimo.
Da presença dela restou um fio de cabelo que ficou preso no sofá, agarro-o, experimento a elasticidade, pouso-o sobre uma folha branca, é castanho escuro quase negro, comprido. Deixo-o voar pela janela aberta, há-de ir parar a um sitio qualquer onde se amontoam desperdicios de outras relações, sempre tive razão em não querer cultivar frases feitas sobre declarações que se costumam dizer entre um homem e uma mulher, eu sabía. Resume-se tudo no final, a um fio. Que se partiu.
Lá vens tu, não como ontem mas como sempre, os tacões a martelarem calçada, depois escadas, depois inquietos sobre o tapete de entrada. Ficas a olhar para mim, mãos na cintura, pergunto-me o que irá seguir-se, parece que medes forças comigo quando eu não tenho a minima intenção de travar combate algum, então chegou-te? Chegou-te, não percebo, ontem se te chegou, se me chegou o quê, aquilo que queres de mim, a única coisa que queres de mim, sexo, só sexo não é assim? Pronto, lá vamos nós. Pensei que esta plataforma estava ultrapassada, arrumada, esquecida. A partir deste instante é mais do mesmo, ruminas sobre coisas que se passaram há meses mas vem tudo desaguar nas tuas mini-férias, o gajo, a queca, a palavra, o compromisso, o medo, os traumas, os segredos, a idade, a puta de serviço, a fuga, a janela, a noite, as lágrimas. Sinto-me na condição de pagador pelo tesão de ontem. Peço-te que saias e não voltes mais. Nunca gostei de te ver chorar. Há coisas que não se sabem onde começam e porque começaram mas ainda assim o fim é incontornável.
Uma balda ontem mas hoje chegas, noc-noc na minha porta de mansinho, nem dei por ti nas escadas, pois não, os sandálias na mão, ainda não fechei a porta nem a boca da surpresa e tu abres o vestido e mostras tudo ou seja nada, só corpo, pele. Atacas-me, atiras-te ao meu pescoço, ferras-me a garganta, metes a lingua na minha boca, as mãos por dentro das minhas calças,estou parvo, nunca te vi assim tão ousada, deixo que faças de mim o que te apetece e sabe-me bem, pelo chão estão as roupas e nós, enquanto te balouças em mim pergunto-me o que irá acontecer de seguida, olhas-me de uma maneira estranha, fixamente, quem és tu que não conheço... Levantas-te, apertas os botões na frente do vestido, pegas nas sandálias e sais. Não te ouvi um ruído sequer, nada, nada. De repente parecías a noite a violar-me.
Entraste, saíste. Ontem foram mais os silêncios e os suspiros o que encheram a minha sala do que a tua pessoa sempre tão ruidosa, tão cheia de conversas banais que me deixavam uma zoeira na cabeça que por vezes só desejava que te fosses embora. Não percebo o que é que queres. Se calhar queres continuar comigo, vazar as tuas histórias comigo, sabes que não te censuro e isso agrada-te, claro que te agrada, mas parece-me que também te agrada o sexo com esse tipo que conheceste e como estás dividida esperas que a decisão seja do meu lado. Ficarías satisfeita se corresse contigo de vez, isso tranquilizava-te a consciência, desculpa lá mas a consciência é tua. E o corpo também. Além de que nunca exigi exclusividade, detesto compromissos. Ou será que é isso que queres? Que me tentas encostar contra a parede? Bom, encostar contra a parede faz-me lembrar algumas vezes que entraste aqui e não houve tempo para mais, foi de pé. Foi bom, muito bom, mas se até a noite se dobra em madrugada e depois amanhecer talvez seja uma boa altura para experimentar outras posições...
Eu não estou a alucinar, és mesmo tu e as tuas castanholas nos pés, não me mexo, se calhar ainda estou grosso dos tintos da tasca, campainha, és mesmo tu. Não me convidas para entrar, depende, eu vim e não foi para me zangar, entra. Entras e sentas-te na beirinha do sofá como se estivesses em casa de uma pessoa estranha a que se vai pela primeira vez, as pernas muito juntas, os pés colados um ao outro, vem-me à memória quando te afastava as pernas e te deslizava as cuecas até aos tornozelos e te olhava o sexo até te sentires incomodada, depois lambía-te e eras tu mesma que acabavas por te desembaraçar das cuecas que te atrapalhavam até te vires. Preciso de saber como é que estamos, como é que estamos?sim, como é que ficamos, se acabámos ou, diz-me tu, não sei, se tu não sabes que queres que te diga? Silêncio. Quase tão chumbo quanto a noite quando aqui chega.
Sinto-me doente, o vinho de ontem adoeceu-me. E também as conversas de tasca levadas para a tragédia dos homens e das mulheres, tudo à mistura com o sarro do barril e aquela palavra, até na tasca a falam e enchem a boca como se fosse mais um gole que tragam queimando-lhes as entranhas. Puseram-me doente com as perguntas que me fizeram, se não tenho mulher, o que é feito dela e na falta há sempre uma puta que faz um jeito na vizinhança que nem só do dinheiro elas vivem, também precisam daquilo, nem que seja por uma hora e sem serviço à lista e a pedido dizem-me aquela palavra quantas vezes eu quiser. Estou nauseado de tanto amor que me atiram à cara. Maldita palavra!
A noite e as noites, a noite fora da minha sala são noites novas, vejo os animais que da minha janela parecem homens e mulheres a dobrarem esquinas, só a sombra se lhes atrasa, imagino-os a chocar uns contra os outros pelo sobressalto do ângulo, depois cheiram-se, lutam pelo passeio empedrado ou acasalam. É tudo tão simples à noite. Deixei-me ficar na taberna à espera que ela saísse, não a quero ver, prefiro as invenções que se sentam e me arrastam nesta marca de copos sobre o mármore do tampo das mesas sujas nas palavras contadas de cor por quem entrou na noite e nunca mais saiu, falam-me dos animais da noite empurrados por vinhos azedos que os baralham, estou enjoado, quero vomitar, mas tenho medo que na golfada me saía o que acabei de ouvir.
Ouço-te os saltos na escada, não me está nada a apetecer levar contigo, pensei que a cena do telefone tinha bastado, a minha vontade é fazer de conta que não estou mas não me serve de muito, as cuscas logo te informam que eu estou, que deves insistir. Só espero que não faças aquela coisa irritante com os nós dos dedos na minha porta... Tocas a campainha. Boa! Já é um avanço! Mas mal abro a porta começas a acusar-me de todas as desgraças da tua vida, e que estás aqui porque homem algum te desliga o telefone na cara. Não te convido para entrares porque não te quero na minha sala mas tu já estás cá dentro, impressionante! O teu tom de voz é agreste e está a ficar insuportável. Não consigo conciliar a mulher com quem tive um sexo fantástico e esta que berra como num comicio. Não dá. Não tenho outra hipótese: Saio, eu espero a noite lá fora, há-de cair-me em cima como uma bebedeira que faz esquecer.
Telefone. Se podes vir, não, não podes vir, que não me dá jeito, não é uma questão de jeito, sou eu que não te quero cá em casa, choraminguices, tenho mais que fazer, se já tenho outra, não é outra é a mesma de sempre, insultos, mais choraminguice, desligo. Telefone. Se lhe desligar o telefone na cara nem sabe o que me fará, desligo sem dizer nada. Telefone. Como posso eu ser tão frio, cobarde e tê-la enganado durante tantos meses, ela e outra, a outra é melhor que ela, se já lhe disse aquilo que nunca fui capaz de lhe dizer, talvez por isso nunca lhe tenha dito a palavra mágica, porque era à outra que dizía. Pouso o telemóvel. Durante algum tempo ainda ouço uns sons, depois regresso ao estirador, esqueço-me por completo. Se eu lhe tivesse dito que a de sempre é a noite alterava alguma coisa? Os monólogos são discursos insonorizados, são impermeáveis à interrupção para diálogo.
A vizinhança pergunta-me por ela, as cuscas do costume andam danadas para saber o que aconteceu, devem ter ouvido a discussão naquele dia, janelas abertas, casas pegadas, já se sabe, é o jornal da caserna. Eu sorrio, dou-lhes a salvação e não respondo, sei como contornar o sentido de comunidade que esta gente partilha de que o problema de um é o problema de todos, já moro aqui há tempo suficiente para saber como funcionam e se algumas vezes me irrita profundamente tantas perguntas pela noiva, doutras divertem-me mesmo, até já as usei para os bonecos animados. Elas e eles também já se habituaram a mim, às minhas transformações antes daquele momento curtíssimo que ninguém consegue precisar sobre a mudança do dia para a noite. Agora é dia e agora já é noite, a ponte o entardecer mas alguém sabe explicar quando?
Não sou agarrado a tralhas que me tragam recordações. Nem mesmo quando viajo sou do tipo de trazer uma miniatura de alguma coisa emblemática do sitio que visitei, basta-me o ter vivido e gozado, essa é a melhor coisa que se traz e permanece, não se parte quando cai nem se arruma na cave por não fazer parte da decoração nova da sala. A escova de dentes e o cravo de papel vermelho estão no lixo, eram dela e se ela se foi não há razão para amontoar coisas sem préstimo. Bolas, já me chegou todas as explicações que tive de dar, ridiculo dar satisfações do que não se fez! Desembaraçado é isso, estou desembaraçado destas pendurezas. Pronto para me enlear no final do dia e fechar os olhos àquelas cores irreproduzíveis que me levam até à senhora da noite. Renascer... com as dores do próprio parir.
É comum dizer-se que quando alguém se vai embora fica um vazio mas eu não sinto nada disso. Também não sinto que tenha recuperado alguma coisa perdida. Tenho a sala só para mim, a janela só para mim e o tempo para gastar como eu quiser. Talvez seja um alivio o que sinto mas nunca deixei de fazer o que sempre fiz por causa dela. Bom, havía uma coisa que eu fazía, nem sei bem como nem porquê, mas volta e meia lá me achava na necessidade de me justificar de coisas que não tinha a minima culpa e nem ligava, mas de repente começou a fazer sentido o que não tinha cabimento nenhum, a que propósito é que eu me sentía culpado do que não era? A maior parte das vezes era só para não ter que ouvir aquela ladaínha... Chateava-me também quando eu quería que fosse comigo a algum lado e ela demonstrava que aquilo não lhe interessava minimamente, uma seca, um frete. Não tenho a ilusão de ter acordado de repente e ter visto que não éramos do mesmo mundo, sempre o soube, mas não fazía mal, até me fascinava de vez em quando aquelas conversas sem pés nem cabeça. Pena que nunca me tenha explicado aquele código do bater na porta... olha, não levou a escova de dentes nem o cravo de papel vermelho.
Besta. Este é o som da última palavra que me deixaste antes de saíres disparada escada abaixo. Não me afecta, o que me deixou fodido foi deixares a porta escancarada o que para mim é uma falta de respeito. Deves achar que podes entrar e saír daqui quando te apetecer e eu hei-de estar à tua espera para te aguentar os humores. De uma certa forma até foi bom, melhor: esclarecedora, porque a partir daqui ía ser uma seca e eu não tenho estomago para isso, esta foi uma boa altura para cada um ir à sua vida. Tu à procura de quem te diga aquela coisa e eu de ter um pouco de paz quanto à pressão para dizer aquela coisa. Mas já disse e repito, não me arrependo nada, nada de termos estado juntos. Gastou-se. Como todas as relações, todas as relações se gastam, mesmo que digam que há amores para toda a vida, isso é conversa. Pronto, agora tenho muito trabalho para fazer e como tenho tempo para fazer os bonecos animados como tu lhes chamavas, também vão ter tempo para viver a sua vidinha. É a vida pois. De mágico só a noite. Que eu amo.
Vens desalvorada, os saltos como pregos, o volume da voz disparado, o dedinho indicador demasiado próximo do meu nariz, do meu peito, não gosto dessas atitudes sabes bem, além de que estás na minha casa, na minha sala, acalma-te lá e diz ao que vens. Mas não, só choras, choras desalmadamente, mas que coisa, pára com isso, assoa-te, queres água, chá, um copo de vinho acalma, mas não, não queres nada, ou melhor queres que te diga o que não te vou dizer, insinuas que te devo pedir para voltarmos, que te diga aquela coisa. Voltarmos? Mas deixámos de estar? Chamas-me estúpido, estúpida és tu e mimada, não vou discutir, não te vou dar cobertura às merdas que fazes e depois não sabes aguentar e baixa a voz ou terei de fechar a janela, já se ouve os teus gritos no Tejo. Mais choro. Não dá. Vou-me embora e não volto mais, agora ameaças? Se o dizes... Agarras-te à maçaneta da porta, devagar, esperas que te impeça, toma que isto é teu, mas o que é isto? a tua escova de dentes e um cravo de papel que tenho aqui desde o Stº António para te dar. Noite, noite, noite, vem depressa, depressa que preciso de ti!
Essa voz muito fraquinha ao telefone não combina nada contigo, não te faças de doente, apalpas terreno, nem sei bem o que esperas de mim, será perdão? mas porquê? tenho de perdoar alguma coisa? não me parece, mas também não deves esperar que eu te diga volta, porque tu sabes onde estou, a porta está aberta para ti e isto não é nenhum estabelecimento com hora de entrada e saída e muito menos um contrato com obrigação de assiduidade, vens quando te apetecer. Se. Te apetecer. Vais dizendo umas coisas que eu nem percebo, a falar tão baixinho e a choramingar ao mesmo tempo é dificil entender as tuas palavras e a verdade é que já sabes que eu não gosto muito de telefonemas, ainda mais quando a maior parte do tempo só te ouço a suspirar e a fungar, queres falar aparece, queres dar um recado liga. Como fico sem saber se é uma coisa ou outra isto é uma perda de tempo. E ainda mais inutil quando repentinamente mudas o tom de voz para o ataque e para ameaças quando te apercebes que não te vou pedir seja o que for. Não tenho paciência para isto. Desligo. Neste momento estou farto de ti.
Pois. Apetece-me mesmo dizer eu sabía mas como não adianta nada não digo. Mas posso mostrar-me surpreendido e até irritado com o facto de te desculpares comigo para ires para a cama com outro gajo. Só espero que tenha valido a pena, porque se a tua consciência te dói agora dessa maneira sem teres tirado gozo nenhum, grande azar. Agora... não posso compreender nem aceitar que digas que essa vontade te foi obrigada por mim. Por mim??? Não sabes quando queres, quando te apetece, quando tens tesão?! É que esse argumento esfarrapado de que eu é que sou o culpado porque sou ausente, porque sou distante, porque nunca te digo que te amo (pronto, já disse a maldita palavra!) é coisa de mulher que não sabe aguentar o mal-estar e procura o exorcismo na culpa alheia! Fazes-me lembrar as beatas que depois do pecado cometido procuram o confessionário e saiem imaculadas com três Ave-Marias. E não se fala mais nisso. Claro que hoje nem apareceste, estás envergonhada. Mas eu não tenho nada a ver com os teus remorsos nem nunca te disse que estavas proibida fosse do que fosse. Era só o que faltava! Não és minha propriedade, não te comprei nem resgatei. Hoje a noite vai saber-me bem, preciso que venha negra e funda.
Falas à mesma velocidade com que os saltos dos teus sapatos picam as escadas, emendo sandálias, isto não são sapatos ensinas-me tu, ok aprendi, só não percebo o motivo de tanta excitação ainda mais a seguir a um dia em que não deste as caras e nem sequer tocas no assunto, falas, falas, caramba como falas rápido, agarro-te e aperto-te contra mim, tento beijar-te, inclinas a cabeça para tráz, não me estás a ouvir, eu estou a falar, pois isso sei eu mas não estou muito interessado nessa barulheira, prefiro que me deixes ocupar a tua boca com as palavras que tenho debaixo da lingua, estás parvo, não, estou com tesão, então faz cruzes na boca, não te apetece, não é isso, então é o quê? É aqui que te calas, baixas a cabeça, libertas-te dos meus braços e de costas para mim junto ao parapeito ouço-te baixíssimo, temos de falar, fala, não penses que é fácil, eu não penso nada, aconteceu uma coisa, que coisa, uma coisa que eu não estava à espera e não a procurei, fala, no fundo foste quase tu que me empurraste, eu? É neste preciso instante que sinto que a noite grita por mim e não há parapeito que me resguarde.
Deves achar que por nada dizeres eu fico aflito, ligo, mando sms, corro à tua procura. Já devías saber que esses esquemas comigo não funcionam, não vens porque não queres, não te apetece ou não podes embora desconfie que há por aí novidade. Não me surpreende, sabía desde o inicio da nossa relação que viría a acontecer e não estou nada arrependido de me ter envolvido contigo. Até pode ser que esteja redondamente enganado mas a vantagem da minha idade é ler nos sinais antes de se tornarem uma constatação. Eu espero, sei que virás falar comigo, é uma questão de dias, imagino que a situação te há-de empurrar para um desconforto tal que te seja impossível manteres calada. Quer dizer, manteres-me a mim e a mais esse alguém que te encantou na tua escapadinha. Não há necessidade deste silêncio a um Domingo tão bonito. E a um entardecer que perdoa qualquer pecado.
Não vens, Sábado é dia de praia, nem sequer me perguntaste se eu quería ir. Na verdade era uma perda de tempo porque eu não ía mesmo, engalfinhar-me naquela gente toda deitada na areia não é o meu ideal, prefiro as gentes do meu bairro e as conversas na tasca com os mais velhos ou então tomar o eléctrico e fazer-me à Baixa, à Brasileira, tomar um café onde o café tem o gosto único de café e ler, ver, imaginar, matéria bruta para o meu trabalho. Claro que este programa para ti é uma seca, coisa de velho e se eu te perguntasse se me acompanhavas arranjavas uma desculpa qualquer para te escapares ou então à última da hora ligavas a dizer que tinha surgido um contratempo. Vês, é essas coisas que me chateiam em ti, esse favor que parece que tens que fazer-me em não me dizeres tudo directamente. Ao menos hoje, primaste pela omissão, se to referir vais insistir que me convidaste, eu é que não me lembro, sou distraído... Cheira-me que esta noite há lua. Espero que haja, espero que haja...
Se vens para continuar o discurso de ontem melhor não apareceres, não tenho pachorra, está demasiado calor, dormi mal e tenho trabalho para fazer, além de que é uma absoluta perda de tempo, tu vais sempre voltar ao mesmo assunto e à mesma necessidade de falares sobre essa coisa e eu hei-de continuar a evitar dizer a palavrinha que tanto te agrada e a mim me põe os cabelos em pé, para quê, isso adianta alguma coisa em relação a nós, à nossa relação, aos nossos momentos, torna o sexo melhor, não. É só um substantivo. Lá vens tu, as sevilhanas nos pés como castanholas, já te ouço, depois as pancadinhas na porta. De seguida falas de tudo e de nada, mexes no estirador, nos lápis, espreitas o frigorifico, regressas à sala, atiras-te ao sofá e abanas a perna traçada. Talvez te apeteça o mesmo que a mim ou não, logo descubro. Como vês não é preciso falar daquela coisa para te saber toda, é suficiente conhecer a noite antes que ela chegue.
Dá para contar as passadas, não vens naquela pressa desenfreada, antes de tocares na porta com um dedo que seja abro-te a porta, hoje não estou para ouvir o teu dedo a comunicar qualquer coisa indecifrável. Calor, queixas-te, então mas não era calor o que querías? aí o tens, engraçadinho, que é que eu disse agora para merecer o tom irónico? tu sabes, sei? sabes. E com esta deixa fico com a sensação de que vem aí dose, estou quase certo que vou ser culpado de estar calor e de ter chovido no primeiro dia da tua ida, calo-me, espero. Não tens nada para me dizer? Eu sabia! Mas não respondo, olho-te nos olhos e aguardo que prossigas, a retórica é uma arma de arremesso e eu já coloquei o escudo. Dás inicio às hostilidades falando de ti na terceira pessoa e como protagonista de uma história que tanto toca a mártir como a super-mulher, fazes perguntas e forneces as respostas, daqui a nada vou deixar de te ouvir, sei como sou, ouço-te mas as tuas palavras chegam-me da mesma forma que o teu tamborilar na minha porta. E a noite que cada vez chega mais tarde...
Entras e enches-me a sala com o mundo lá de fora, o teu, das coisas que te interessam, enches o tempo com conversa de encher e eu desde ontem que estou à espera, ainda não falaste de mim, de eu não ter ido contigo, eu conheço-te, tu não és de deixar em branco uma coisa destas sem debateres, repisares, apontares o dedinho do código Morse, culpares-me de qualquer coisa. Tu não és simplesmente simples. Mesmo que já tenha passado e eu não tenha ido e nada possa alterar esse facto. Não falaste de saudades nem me perguntaste insistentemente se senti a tua falta e mais que tudo nem sequer disseste aquela palavra nem apertaste comigo para que a refira. Estou alerta. Sabes, pareces a noite naqueles dias de Outono que chega de repente à hora do lanche...
Bates à porta como se te perseguissem, nada do Morse que me irrita, vens a fugir de umas pingas de chuva que te arruinam o penteado, é só água digo eu mas devía estar calado porque entras numas explicações técnicas sobre alisamento e caracóis de que nada concluo e se tornam um enfado que não me apetece ouvir, agarro-te, reclamas que não te ouço, quero lá saber dessa conversa, aperto-te contra mim, cheiras bem, é um cheiro quente de teres subido as escadas na pressa, queixas-te que te aperto demasiado e te amachuco a roupa, pois aperto e ainda te hei-de apertar mais até entrar em ti e nessa altura a roupa só amachuca o chão e o tapete, mais um bocadinho de fita alternando a contrariedade e os beijos, sentes-me, sinto-te, o teu cheiro está mais quente, empurras-me para o sofá, surpreendes-me e dominas-me. Não sei se é da luz do entardecer mas daqui do sofá o cravo de papel vermelho sobre o estirador parece rubro.
Os saltos, os toques na porta, abro-te a porta e uma onda inunda a minha sala, vens barulhenta, animada, bronzeada. Então, que achas, bronzeada, só isso? Que mais há para achar não sei mas vou já, já saber, falas pelos cotovelos e não te consigo acompanhar, repetes nomes de pessoas que não faço a minima quem sejam mas teimas em falar delas como se fossem visita da minha casa, estou contente de te ver mas ao mesmo tempo tenho saudades de ontem e do silêncio de estar comigo só, olho para o cravo de papel vermelho em cima do estirador e penso que foi uma idéia estúpida em ter-to guardado para te dar, que importa uma merda de papel comparada com todos os dias de festa que tiveste e que me parece foste a rainha do baile? Sento-me, isto vai durar. Para além do beijo casual da entrada não tive direito a mais nada, nem sequer a sentir-te o cheiro, estás de pé na maior oratória, gostava que de tanta excitação alguma sobrasse para o sexo que me apetece, agora, de pé, nem perguntaste como estou. Espero que a noite chegue, não se acanhe com tanto frenesim.
Guardei-te um cravo de papel vermelho, sei que achas piada a este tipo de coisas, vês lembrei-me de ti, embora esteja convicto que será pouco para aquilo que esperas para o teu regresso, talvez uma orquestra, uma cena de filme americano em que me ajoelho e te peço para passares o resto da tua vida comigo. Que grande decepção vais ter. Não há heróis, só eu, pois é, a vida é cruel. Principalmente à luz do dia em que se notam todos os defeitos.
Parece que já passou muito tempo e que tu não és mais do que uma recordação de um passado que ficou lá para trás, nebulosamente, não te consigo encaixar em nenhum período especial da minha vida, ou pelo menos que me faça dividir o tempo num antes e depois de te conhecer e ainda depois de teres ido para estas tuas mini-férias. Estou bem. A sensação que tenho é que o pior já passou mas nem sequer sei o que é a definição de pior nesta situação. Habituei-me a mim novamente como se tu te tratasses de um precalço na minha rotina e agora tenha voltado a entrar nos eixos. A vizinhança pergunta-me por ti, estranham a tua ausência, ainda mais nas festas e quase me dá vontade de rir por ver como me fazem a pergunta, não sabem muito bem como fazê-lo sem denotar alguma piedade, ela deixou o vizinho, coitado não merecía, imagino que seja isto que as cuscas comentam entre si quando estendem a roupa. Deixaste? Acho que nenhum de nós sabe. Mas para deixar alguém é preciso ter-se tido e ter, ter mesmo, só a noite, a noitinha. Pragmática.
Ouço os teus saltos na rua, apuro o ouvido, na minha cabeça imagino-te a subir as escadas e de seguida os dedos a baterem à porta naqueles toques que só tu entendes, espero, espero ainda mais, não chegas, espreito à janela não vás ter-te arrependido, ao fundo da calçada vejo uma mulher de saltos altos a afastar-se, não és tu. Vá lá saber-se porque alucinei ou porque raio a memória foi desencantar estes sons, não és tu nem deves ser nos próximos dias, aliás nem tenho muita certeza sobre a tua volta. Estou de ressaca, qualquer barulhinho vai parecer-se contigo, até regressares curo-me, enxugo o tinto de vez e recupero a minha sanidade, quem sabe quando fores mesmo, mesmo tu, nem te oiça chegar. Abeiro-me do parapeito, como é triste ver os balões a agitarem-se sem a festa. Tomara já a noite e esqueço tudo.
Noite longa, marchas a ecoarem pelas vielas, pelos becos, pelos pátios, adormeci com o som de vidros estilhaçados e gritos, amantes, putas e chulos, risos, um gato a miar à lua, não houve lua talvez por isso miasse. Fiz a noite de braço à cintura dela, mãos dadas com o sereno que a madrugada vem reclamar, cheira a despedida, porque será que a madrugada cheira sempre a despedida, embrulho-me nestas coisas sem nexo e adormeço com o cheiro do meu corpo, tão diferente do teu a maresia e a bronzeador. Quando voltares sei que me vais perguntar como foram as coisas por aqui, encolho os ombros, que queres, há coisas que não se repetem.
A vizinhança está atarefada a enfeitar a rua, do meu parapeito dou indicações, atendo aos pedidos de opinião que lá embaixo me solicitam, faço parte deste guetho do mundo em que as tradições se cumprem na alegria da união, como a sardinha a pingar e a enfedorar-me a roupa e as lembranças de outros santos a que todos assistimos e lamentamos que naquele tempo é que era. No estirador esboço os preparativos deste ano, as mulheres de seios grandes e eles de bigode fora de moda, os balões, os manjericos, coisa que te deixaría enciumada, nunca te desenhei, nunca tive vontade e não sei explicar porquê ou talvez saiba, tu não és daqui, és mais uma turista que acha graça ao povo mas amaldiçoa a calçada por te arruinar as sandálias. Ainda bem que não estás, escuso as explicações quanto aos bonecos animados e à bebedeira de tinto que me encharca até à memória as noites de luar.
Não tenho saudades. Não te sinto a falta, atravesso aquele estado de graça em que se acha ter recuperado a liberdade após o cativeiro. O passo seguinte será lembrar-te em cada objecto da minha sala partilhada, aproximar-me do parapeito e nas mãos recuperar o roçar do teu corpo contra ele enquanto atiras as vistas à rua, consigo ouvir a tua voz distintamente no eco do tempo, provavelmente suspiro. A terceira fase é dolorosamente dourada, a separação traz a memória das coisas boas, tendenciosas, acharei os teus desatinos uma graça e a insistência para que te retribuísse aquela palavra um arrependimento que não me dá sossego. É aqui que desperto da letargia poética. A realidade é que nada disto vai acontecer, eu sigo a minha vida tu a tua mas nestes dias em que o tempo é aquilo que posso fazer dele ocupo conforme me apetece os monólogos que a cabeça permite. A tua escova de dentes tem um prazo de validade, de seguida vai para o lixo. Mas há a noite recorrente que lamento profundamente que nunca tenhas entendido e isso é mesmo verdade.
Dei comigo a pensar nas eleições e na certeza que tenho que deves pertencer à larga percentagem dos que se borrifaram para o voto, não estou a ver que tivesses adiado a partida só por causa disto. Tudo o que é acto politico para ti é uma seca e só apelas ao mau nome do governo quando te vão ao bolso, sublinho que a ti e a mais uns quantos Portugueses mas tu nem ouves, queres lá saber, se tivesses ficado por cá nem sequer podería trocar impressões contigo, assistir aos resultados, haverías de agarrar o comando e na fúria do zapping desancavas o tempo que se perde em debates que não levam a lado nenhum. Talvez aproveitasse para te apalpar, dar-te uns beijos e uns apertões, ignorar as queixas sobre a roupa amachucada enquanto te encaixava a jeito nas almofadas do sofá até conquistar o teu voto de silêncio, aquele feito da respiração que se tenta controlar e se perde por completo no aflorar do sangue, do desejo, do orgasmo. Conjecturas. Certo mesmo, sem abstenção nem abstinência só o entardecer que escorre pelas paredes da minha sala.
Sabe-me muito bem ir para o estirador quando me apetece, esticar-me no sofá só para mim, beber café sem hora para isso ou simplesmente ficar a ver as modas como tu dizes, tudo coisas sem importância mas que afinal fazem a minha vida. Pormenores que aos poucos conseguiste que eu os pusesse de parte para os encher com a tua presença, as tuas coisas, o cliché das relações, concessões, ceder, eu não quero ceder nada da minha vida, só tenho esta e tu também não o deves fazer, muito menos tu que tens mais tempo para viver do que eu, eu já tenho a minha fatia para trás, pelo menos posso gabar-me disso e desse proveito fui e sou feliz. Deve ser por isso que estamos neste ponto, tu com as tuas escapadinhas sociais, eu no meu parapeito a ver as modas. É incontornável o facto de eu não ir mudar e tu também não. Talvez não voltes, não te levo a mal mas eu também não te chamo, isso é uma certeza. Mesmo sendo o sexo tão fabuloso entre nós. É hora da noite chegar, não lhe pedi que viesse mas ela quer e eu gosto por ela ter escolhido voltar sem mo prometer.
Estranho silêncio este em que consigo ouvir tudo o que é ruído da rua sem a tua voz a tentar sobrepor-se ao natural barulho. E a chuva. Pequenina é verdade, mais para refrescar o chão do que para o lavar, mas o bastante para me fazer sorrir ironicamente sobre os teus planos de escapadinha junto ao mar, parece que até o S.Pedro é meu aliado nesta piada. Não sou vingativo mas ontem deste-me cabo da cabeça e hoje é a minha vez de sentir algum gozo a imaginar-te a chamares-me nomes feios e atribuíres esta chuvinha como praga que te roguei, tivesse eu esse poder. Ainda bem que não estás nem vais estar nos próximos dias, posso recuperar algumas coisas inexplicáveis para ti e vitais para mim, nada de muito importante mas que me faz falta, encostar-me ao parapeito, olhar o rio até me doer os olhos para tentar decifrar o nome do cargueiro, ouvir a vizinha a sacudir os tapetes e principalmente tentar fixar as cores do final do dia às tiras sobre o horizonte até escorrerem de vez para a noite.
Tudo normal, não vens, nem era preciso o telefonema a avisar e muito menos a choradeira em que se transformou, as recriminações, a chantagem e especialmente a mensagem velada sobre uma futura vingançazinha. Fiquei sem perceber se fica para quando regressares ou é para ser executada durante a tua ausência e se achas que me incomodas com essas charadas em que a intenção é semear a suspeita, azar, não consegues, namorisca à vontade, não preciso de te dar carta de alforria para fazeres o que bem entendes, não és minha propriedade mas eu também não sou obrigado a corresponder-te como macho ciumento como estavas à espera. É uma chatice quando se lança o isco e depois não se aguenta quando o peixe dá aqueles esticões... Choras porque a conversa não te correu de feição, ficaste contrariada, se calhar esperavas que eu te desse uma ordem, não vais! ou então: se fores, já sabes, não te queixes... aquele mau-estar que fica suspenso e a moer. Mas o que eu dispensava mesmo, mesmo foi a última tirada do não sentes nada porque não me amas, e pronto lá vamos nós caír na banalidade, na repetição desta palavra, usas esta palavra como dinheiro e sabes que mais? Conseguiste mesmo aborrecer-me, vai, vai e goza lá os teus dias com quem quiseres e dá-me paz. Eu e a noite. Apetece-me gritar enfim sós.
Os dedinhos a tamborilarem à porta naquele Morse que eu nunca saberei o que quer dizer alertam-me para a tua chegada e vou perguntar-te porque o fazes, o que quer dizer, porque não usas a campainha, isto é um pormenor mas é uma coisa que me intriga e ao fim de tantos meses a emitires sinais destes na madeira da porta da minha casa penso que tenho direito a ser esclarecido mas não passa de uma vontade minha pois roubas-me a fala e apoderas-te do centro da minha sala, temos de conversar, ai, ai, só espero que não seja aquilo, tens de me dar uma resposta, uma resposta? mas sobre o quê? sobre os feriados, irmos para fora, outra vez? sim, outra vez, fiquei sem perceber nada ontem. Não, eu é que estou sem perceber a razão de voltarmos a este tema o que me remete de imediato para a história das pancadinhas, isto deve ser uma conversa codificada que eu não consigo decifrar, mas afinal que resposta queres tu?quero saber se queres ir comigo para fora porque se não quiseres eu vou à mesma. Pronto. Agora entendi. Claramente. Está bem. Está bem? Sim, vai, eu fico. No melhor desempenho bates a tempos certos com a unha pintada sobre o meu estirador enquanto os olhos te marejam brilhantes, mordes o lábio, enches o peito de ar, esta é de facto uma mensagem encriptada, porquê as lágrimas. Quando a noite bate nos vidros da minha janela encaro-a, precisava que ficasse a fazer-me companhia sem a luz dos candeeiros.
Adivinha, não faço idéia, vá lá adivinha, não sei, faz um esforço, por muito que te conheça só mesmo sendo um vidente para saber o que vai nessa tua cabeça mas insistes entusiasticamente e eu de braços cruzados à espera dessa grande noticia fico receoso de não a achar tão maravilhosa quanto tu a queres fazer parecer, não adivinhas? Abano a cabeça, espero, fazes render o peixe dando-me uma última oportunidade, estes joguinhos na verdade aborrecem-me, nunca tive estaleca para isto, queres contar conta senão pára lá com isso, podíamos ir para fora na semana dos feriados, não é uma boa idéia? É uma péssima idéia, é exactamente nessa altura que mais gosto da cidade, vazia, o ar fica diferente, as pessoas que ficam são as diferentes, o meu plano é ficar aqui mesmo. Do charme saltas rapidamente para as mãos nas ancas, nada do que eu digo te satisfaz, não percebo porque estamos juntos, ora essa é outra observação que deverías colocar a um vidente se bem que eu acho que estas coisas não têm de ter forçosamente uma razão, mas não digo nada, olho para ti, vejo a tua silhueta e lembras-me uma bilha de barro única feita à mão, duas asas elegantes deixando passar a luz que entra pela janela aberta da minha sala, sinto sede e quero que me sacies mas tu agarras na carteira e sais disparada. Nem me mexo de onde estou, espero pela noite para me molhar a garganta seca.
Não te respondi à pergunta que me fizeste e penso nisso agora, antes de te ouvir os saltos na escada, porque estou absolutamente convicto que a conversa irá bater na mesma tecla e tal como ontem, não te vou responder. Nunca achei que os factos que trazemos de outras relações fossem confissões que devessemos fazer com quem estamos no presente, mesmo que tu me tenhas contado de todos os gajos com quem andaste, não te censuro nem te critico, simplesmente não é a minha forma de ver as coisas e embora amues por cada vez que puxas o assunto e eu não te dê troco não me acho em vantagem por saber coisas de ti e tu não as saberes de mim, essa é a tua posição, a minha é viver e guardar, hei-de manter para o meu silêncio todas as nossas conversas, as nossas tardes e o nosso sexo sem nunca o partilhar com ninguém depois de partires. Do meu passado é assim. Vens lá, dá para ouvir os teus saltos na rua e é agora que esse som interessa. A seguir só a noite e mais nada.
Sabes que dia é hoje? Segunda, mas tenho a certeza que esta não é a resposta que devería dar, aproximas-te do estirador e desenhas uma casa, um sol e um mamarracho qualquer que verdade seja dita, o desenho não é talento que tenhas, dia da criança dizes em voz estridente com a folha acima da cabeça. Não sou capaz de mostrar emoção, as celebrações por cada dia do ano tornaram-se tão corriqueiras e fora de contexto que me aborrecem. Qual é a diferença pergunto, quase me bates, falas dos direitos das crianças e de consciência, rebato com a delinquência, fome e analfabetismo, ficas furiosa e nem percebo porquê, amachucas o papel e atira-lo fazendo pontaria à minha cabeça que devolvo com um golpe de guarda-redes, chamas-me parvo, chamo-te ingénua, chamas-me descrente, chamo-te crédula, ficas séria e perguntas se não gosto de crianças. Caíu a noite e eu nem me apercebi do crepúsculo.
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